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1986

Enquanto o cometa Halley passava perto da órbita terrestre, o mundo queria curtir a vida adoidado por pelo menos um dia como Ferris Bueller. Maddona fazia um sucesso esmagador com o seu terceiro álbum. Van Halen lançava o primeiro trabalho da era “Van Hagar”. Mike Tyson era o nome do esporte no momento, a Pixar abria suas portas e a lenda de Zelda começava a ser contada nos consoles de video game.

Sim, 1986 foi um ano muito interessante na cultura pop, e para os quadrinhos… bom, para os quadrinhos foi simplesmente o melhor de todos os anos.

Anos antes, em 1978, Will Eisner lançou a primeira de todas as Graphic Novels, o clássico Um Contrato com Deus. O novo formato distinguia-se do formato tradicional por conter toda a narrativa dentro do mesmo volume, e por apresentar conteúdo mais maduro, adulto. Escritores e artistas que estavam procurando uma forma de publicar trabalhos com conteúdo mais pessoal viram na Graphic Novel a oportunidade perfeita para isso.

Na década seguinte veio o crescimento e o reflexo do conteúdo maduro nos quadrinhos tradicionais. Em 1980, a Saga da Fênix Negra levou as histórias dos X-Men para outro patamar, com momentos perturbadores e um desfecho pouco comum em quadrinhos mensais. Quatro nos depois, a Marvel lançaria Guerras Secretas, a primeira mega saga dos quadrinhos envolvendo personagens de vários grupos diferentes na mesma história.

Moebius e Jodorowsky iniciaram em 1981 um trabalho que se estenderia por toda a década, Incal. Só para citar a importância desse trabalho, existem boatos de que Blade Runner e O Quinto Elemento emprestaram muito dos elementos visuais do quadrinho.

The Incal The Fifth Element 1

The Incal The Fifth Element 2
Big bada boom!

Frank Miller reformulou completamente o Demolidor, dando uma pegada mais madura e obscura para as histórias. Um bom exemplo dessa mudança é a história intitulada Roleta Russa, que mostra um Demolidor fora de si fazendo roleta russa com um dos seus oponentes mais clássicos, o Mercenário. O detalhe é que o vilão estava imóvel numa cama de hospital…

Roulette

Em 1985 a DC Comics lançou a sua primeira mega saga, Crise nas Infinitas Terras, que tinha como objetivo ajustar a até então bagunçada cronologia da editora.

Chegamos então em 1986. As lojas especializadas confirmavam o sucesso da nova era dos quadrinhos. Existia um público adulto sólido que buscava material sofisticado, inteligente e maduro. Marvel, DC e as editoras independentes e alternativas entenderam o momento e arregaçaram as mangas. Aliás foi nesse ano que surgiu a Dark Horse, das poucas editoras que surgiram e que persiste até hoje.

Para começar, Frank Miller fez um estrago enorme. No mesmo ano, o cara conseguiu colocar nas bancas A Queda de Murdock, Elektra Assassina e Batman, o Cavaleiro das Trevas, além de estar trabalhando no roteiro de Batman Ano Um, que foi lançado no ano seguinte.

A Queda de Murdock é considerada a melhor história do Demolidor, e se não bastasse o roteiro impecável, a arte de David Mazzucchelli é um esplendor, com uma narrativa gráfica perfeita e cheia de significados, além das referências à obras de arte. Elektra Assassina traz uma aventura solo da personagem com uma arte arrebatadora de Bill Sienkiewicz. Já o Cavaleiro das Trevas foi escrito e desenhado pelo próprio Miller. O resultado é um Bruce Wayne mais velho, azedo, bigodudo e recluso que decide voltar a ativa em meio ao caos e o calor causticante de Gotham.

Bruce Wayne Mustache
Taí um bigoda de respeito! Bruce Macho Azedume Master Wayne.

Miller conseguiu mostrar o desenvolvimento do personagem de forma inteligente, fazendo o leitor sentir as dificuldades do Morcego para voltar a lutar sem o mesmo vigor da juventude. A luta na fossa mostra isso perfeitamente. A história ainda tem uma das melhores cenas do Coringa nos quadrinhos, quando ele vê pela TV que o seu adversário está de volta a ativa. A breve participação do Arqueiro Verde e a luta contra o Superman fecham essa obra prima com chave de ouro.

E se Miller investiu em personagens conhecidos, Alan Moore trouxe para o público uma história absolutamente diferente, totalmente fora do esquema de qualquer coisa que já havia sido feita nos quadrinhos: Watchmen.

Moore explorou contextos políticos, física, teoria do caos, simetria, religião, ocultismo, e tudo isso usando super-heróis humanizados. O único personagem dotado de superpoderes afeta toda a linha temporal da história dos Estados Unidos, e o autor explora hipóteses sensacionais usando esse contexto. Não bastando a história ser um primor, ainda é complementada pela arte soberba de Dave Gibbons, que soube expressar perfeitamente a proposta de Moore. Watchmen é considerado o melhor quadrinho de todos os tempos, o ícone máximo dessa nova era (há quem coloque o Cavaleiro das Trevas nesse posto, mas isso é apenas uma questão de gosto).

Watchmen

Para fechar a trinca com Batman e Watchmen, Art Spiegelman lançou nesse mesmo ano a primeira parte do clássico Maus, conhecida como Maus – Meu Pai Sangra História. Spiegelman conta a história do seu pai durante o Holocausto, usando figuras antropomórficas como personagens. Posteriormente o autor finalizaria a segunda parte e lançaria o trabalho completo, que ficaria conhecido com a única história em quadrinhos vencedora do prêmio Pulitzer – além de arrebatar novamente o prêmio Angoulême (feito que já havia alcançado com a primeira parte), vencer também o Harvey e o Eisner, considerado o oscar dos quadrinhos. Sensacional!

A DC Comics, que colhia os frutos do sucesso de Batman – O Cavaleiro das Trevas e Watchmen, ainda viu seu ícone maior ser reformulado no pós-crise. John Byrne contou uma nova origem para o Superman em O Homem de Aço, que se tornou um sucesso imediato. No embalo de Crise nas Infinitas Terras, outra saga foi lançada, Lendas. E nas mensais, Batman chegava ao número #400, com direito a introdução escrita por Stephen King, arte da capa de Bill Sienkiewicz e ilustrações de mais de vinte artistas. Uma festa para o homem-morcego!

Batman 400: Sienkiewicz e sua arte exótica.

Já a Marvel tentou criar um novo universo com a Marvel New Universe, mas viu a ideia ir pelo ralo com títulos e personagens esquecíveis. Além do sucesso com A Queda de Murdock e Elektra Assassina, teve com Massacre de Mutantes a primeira saga de expressão dos X-Men desde a Fênix Negra. A história aliás trouxe pela primeira vez um confronto entre Wolverine e Dentes-de-Sabre aos quadrinhos, o início da fase da transformação do personagem Anjo em Arcanjo e a entrada de Psylocke para a equipe.

Wolverine Sabretooth
Pêlos e garras e mordidas e cara feia e quebradeira e tudo e…

A década de 80 foi muito rica para os quadrinhos, e certamente 1986 é o ápice dessa era. Mesmo após 30 anos, cada uma dessas obras ainda tem uma importância enorme, especialmente Watchmen e o Cavaleiro das Trevas.

Não, você não é obrigado a gostar de tudo, mas tudo isso merece ser visitado, muitas e muitas vezes. São histórias para serem lidas para sempre! Procure referências, busque vídeos e textos sobre cada obra, e tenha certeza que irá se surpreender com o tamanho da influência de tudo isso sobre boa parte da cultura pop. Aproveite que hoje praticamente todo esse material é muito fácil de adquirir. Tenha em mente que cada vez que você visitá-las, você estará diante da raiz de praticamente tudo o que foi e é feito desde então até hoje em quadrinhos, filmes e seriados de heróis. É o filé do boi! Enjoy!

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Written by Chico Milk

Chico Milk nasceu em Guarapuava City Paradise. Um dos quatro seres viventes. Guitarrista low profile, amante de dias frios, chuvosos e cinzentos, bebedor nato de café com leite, leitor de livros e quadrinhos.

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