relogio

Sempre quando as pessoas dizem a frase “eu não tenho tempo pra ‘x'” eu fico me questionando por dentro. (aqui ‘x’ pode ser família, hobbies, ler livros etc etc). O fato é que a maioria das pessoas consegue tempo para o que realmente gosta de fazer. Com raríssimas exceções, grande parte das pessoas consegue fazer encaixar coisas que gosta de fazer em seus tempos livres.

Certa vez um amigo mais experiente me falou que uma das coisas mais importantes da nossa vida é saber administrar nosso tempo. Essa frase me pegou e ando com ela na minha cabeça. O que faço com meu tempo livre? Cada um pode transformar seu tempo livre em algo prazeroso e bom.

Tolkien falou através da boca de Gandalf: “Tudo o que temos que decidir é o que fazer com o tempo que nos é dado.” (“A sociedade do Anel”).

Não estou falando que tempo ocioso é ruim. Pelo contrário, precisamos muitas vezes puxar o freio, dar uma reduzida na velocidade estonteante do dia a dia e refletir sobre como temos vivido e sobre o que fazemos. Tempo livre sem fazer nada também é importante. Já tive muitas ideias para textos que eu estava escrevendo quando estava deitado pensando na “morte da bezerra”.

Mas a maneira como administramos nosso tempo nos auxiliará a ter uma vida sábia. Não é gastar todo o seu tempo trabalhando, mas também não é gastar a maioria do tempo em hobbies. O equilíbrio é essencial. Se só trabalharmos, seremos seres esgotados física e mentalmente. Mas também se só nos divertimos, seremos seres niilistas, em busca de prazer.

Pessoas mais sábias que eu já escreveram sobre o tempo.

O que é o tempo? Uma das maiores perguntas filosóficas, teológicas e cientificas. Uma “enciclopédia do tempo” tem 1576 páginas e explora as diversas perspectivas sobre esse tema na história (Encyclopedia of time, editado por H. James Birx); vê-se que o tema é profundo.

Aqui não vou falar profundamente sobre o tema, vou falar sobre como a questão do tempo está presente no nosso dia a dia; como lidamos com o tempo e com a falta dele; portanto, sobre o tempo enquanto questão prática do cotidiano e não como algo filosófico.

Mas também devemos relacionar nossa concepção de tempo atual, pós-revolução industrial, com a noção entre aqueles aderentes da tradição judaico-cristã. Por exemplo, a sociedade moderna enxerga o tempo como algo essencialmente cronológico (60 segundos formam 1 minuto, 60 minutos formam 1 hora, 24 horas formam 1 dia etc).

Já, (e aqui podemos tirar importantes lições) entre os hebreus antigos, a noção de tempo era qualitativa. Daí inclusive algumas leituras errôneas do Antigo Testamento. Por todo o Antigo Testamento acontecimentos específicos e individuais eram distinguidos e então arranjados em ordem, não pela localização em termos de sequencia cronológica, mas, ao invés, de acordo com o impacto de sua ocorrência. Os hebreus se admiravam pela importância do significado das coisas e pessoas e não pela medição do tempo.

Para os hebreus, a concepção de tempo se centrava nos esforços e realizações de uma pessoa; assim, eles estavam interessados em como indivíduos progrediam em suas vidas cotidianas – como eles escreviam, jogavam, viajavam, dormiam, sonhavam, realizavam cerimônias, iam para a guerra e oravam.

Gastar o tempo de maneira proveitosa significava viver a vida de maneira que outros pudessem marcar suas vidas e contar histórias de acordo com suas ações. Na cosmovisão hebraica, a questão importante não era “Como eu devo fazer para tornar o uso do tempo eficiente?” mas “Como eu posso fazer o melhor uso de minha vida neste momento presente?”

No Novo Testamento existem duas palavras para tempo: os gregos chronos e kairos (tempo e estações). Chronos se refere à quantificação do tempo e sua extensão, como cada segundo segue um após outro e define o tempo como sendo limitado. Veja-se a passagem de Mateus 2:7:

“Então Herodes, chamando secretamente os magos, inquiriu exatamente deles acerca do tempo em que a estrela lhes aparecera”.

Também Lucas 4:5, 8:27, 20:9, Atos 20:18, Romanos 16:25.

Kairos, por outro lado, se refere ao valor do tempo, como uma era é conhecida pelos seus eventos únicos, o valor fundamental do acontecimento e um momento favorável. Na Bíblia, a humanidade é retratada como tendo um começo distinto, uma história que registra o criador e que está se aproximando do dia do julgamento, quando todas as pessoas, independente de riqueza, prestígio ou realizações será avaliada justamente por Deus.

Assim, vemos que tanto na cosmovisão hebraica quanto na herança cristã, o tempo tem um caráter importante que vai além do meramente cronológico, de marcação da passagem das horas: tem um aspecto qualitativo. A maneira como gasto meu tempo é importante.

Na minha adolescência, quando descobri a paixão pelos livros, havia duas ideias ficcionais que eu achava o máximo. No desenho japonês Dragon Ball havia uma sala do templo, para onde os heróis iam para treinar. Detalhe: dentro dessa sala o tempo passava muito mais devagar. A pessoa podia ficar treinando 1 ano e para os de fora somente se passaram minutos. Eu pensava, poxa, que legal ficar lendo nesta sala? 1 ano de leitura e aqui na terra se passaram somente minutos?

Outra ideia era a das prisões. Em Musashi e em O Conde de Monte Cristo os personagens ficavam presos e podiam usar esse tempo para se aprimorarem, principalmente intelectualmente. Eu imaginava ficar preso e poder ler todos os livros que eu quisesse.

Logo depois eu abandonei essas ideias, mas elas ainda causam devaneios. Hoje procuro conciliar os diversos aspectos da minha vida entre o que eu gosto de fazer e o que eu tenho que fazer.

Isso não quer dizer que tudo o que faço deve ser medido essencialmente pelo que a sociedade atual, tecnológica, considera eficiente. A frase, “tempo é dinheiro”, que Max Weber associa à Benjamim Franklin como sendo uma das bases do capitalismo, é uma das ênfases negativas que o protestantismo legou ao mundo moderno. Essa frase não poderia estar mais errada dentro da convicção de tempo cristã, mesmo com a influencia de Calvino. Para Calvino, a existência humana devia ser vivida em devoção e honestidade; a ética do trabalho em que o sucesso econômico demostrava a boa vontade de Deus, apontava para uma busca não pelo efêmero, mas para a vida eterna. A riqueza era uma consequência de se viver uma vida justa e não o objetivo primário.

As sociedades modernas, onde se vive pelo tic-tac do relógio e pelas tecnologias que produzem uma aceleração em todos os aspectos da vida, fazem com que tudo seja colocado sob a ótica da eficácia.

Mas por outro lado, essa ânsia moderna pela eficiência na utilização do tempo, produz desespero e acaba gerando uma pressão que culmina em insatisfação com o cotidiano e gera um efeito contrário: pra que utilizar o tempo com sabedoria? Já trabalhei 10-12 horas, enfrentei algumas horas de trânsito, quando chegar em casa só quero me jogar na frente da TV e desligar a mente.

O ócio é sempre bem vindo e necessário para acalmar a alma e refletir sobre as coisas, mas será que não estamos criando uma mentalidade negativa e oposta ao da eficiência, produzindo assim, seres que não estão fazendo grandes realizações porque estão ocupados demais pra se importar com a qualidade do tempo?

Perdemos horas assistindo TV, fazendo maratonas de séries, atualizando nossos status nas redes sociais (como disse, não que isso seja errado em si, desde que feito com parcimônia), mas não temos tempo para lermos aquele livro clássico, ou para cultivar um jardim, ou construir algo, ou fomentar novas amizades e aprofundar antigas.

A desculpa do “não tenho tempo para isso” deve ser modificada para “não quero priorizar isso”. Não que isso seja um problema, todos devemos saber o que colocar em primeiro lugar nos afazeres diários. Mas a desculpa de não ter tempo se tornou uma panaceia para explicar minha falta de vontade de me envolver, de me comprometer, de me aprofundar.

Nossa era clama por pessoas sábias na administração do tempo. Quando penso em grandes realizações na história percebo como os homens e mulheres que fizeram diferença souberam utilizar bem seu tempo. Claro que existem aqueles que deixaram em segundo plano família e amigos em busca de um objetivo. Isso também não é ideal. Pois no fim, o que contará não serão somente bens materiais.

Lendo biografias de grandes personagens podemos tirar grandes lições de administração do tempo. Ninguém escreve grandes livros sendo relapso e – a doença moderna – sendo procrastinador. Imagine um Tomás de Aquino deixando pra última hora a escrita de seus mais de 2000 capítulos da Suma Teológica. Ou Michelangelo deixando pra esboçar a pintura da Capela Sistina na noite anterior ao início dos trabalhos. Será que nos dias atuais, a despeito de toda a tecnologia e ferramentas, alguém conseguiria realizar um trabalho no nível do de Lutero ao traduzir o Novo Testamento em poucos meses?

(Aliás, aqui o tema da prisão como um tempo de qualidade para crescimento intelectual retorna: Lutero produziu uma quantidade literária espantosa enquanto ficou preso em um castelo fugindo da perseguição papal, entre maio de 1521 e março de 1522).

O que fazemos com nosso tempo livre, que qualidade tivemos em sua utilização, como o administramos, definirá como seremos lembrados.

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Written by Adriano Borges

Historiador, professor na UTFPR, casado com a mosaicista Mabel e pai de dois filhos.

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