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A política do medo

Como a história evolutiva do cérebro pode nos ajudar a entender a ascensão de governos autoritários

Nós vivemos tempos sombrios no cenário político mundial, com a acensão de líderes com tendências neofascistas em diversos países, incluindo no Brasil. Obviamente esse fenômeno é extremamente complexo e com diversos ângulos, e eu não me sinto habilitada para opinar nos viés histórico, sociológico e político do problema. Mas eu faço aqui uma pequeno recorte explorando como a história evolutiva do nosso cérebro e a nossa construção psicológica como seres humanos pode nos ajudar a entender essa situação. 

Nós, seres humanos, evoluímos para viver em um mundo muito diferente do que vivemos hoje. As mutações que foram selecionadas e permitiram que nós tivéssemos um cérebro tão complexo levaram milhões de anos para ocorrer e ser selecionado. Nós começamos a viver em sociedade e a manipular o mundo a nossa volta de forma mais dramática há alguns milhares de anos – o que, na escala filogenética (evolutiva) não é nada. E as mudanças tornaram-se exponencialmente maiores nos últimos séculos, com as revoluções industriais e tecnológicas. Nesses período, nós passamos a viver mais e morrer menos, e a população mundial cresceu significativamente. Junto disso, nosso conhecimento sobre o mundo também aumentou, e principalmente nas últimas décadas, o acesso a informação tornou-se universal. Mas com isso a escala dos nossos problemas também aumentou.

E nosso cérebro não evoluiu para lidar com esse mundo. Obviamente, nós somos seres altamente adaptáveis e temos recursos para aprender a viver nesse mundo – crianças levam só alguns anos para aprender as regras sociais e nós somos capazes de nos adaptar a virtualmente qualquer mudança no ambiente a nossa volta. Acontece que existe um circuito no nosso cérebro que é altamente preservado em espécies das mais simples as mais complexas, e que é capaz de completamente hackear nosso cérebro e nos fazer agir muito mais guiados por “emoções” do que pela “razão” (várias aspas nesses dois termos).  

Para simplificar o argumento, eu vou falar só de uma área desse circuito, a amígdala – do seu cérebro e não da sua garganta. A amígdala é uma estrutura que fica bem “no fundo” do seu cérebro, e todos os animais têm alguma versão dela. O principal papel da amígdala é dizer para o resto do cérebro quando algo é bom (reforçador) ou ruim (aversivo). Em termos técnicos, a gente diz que a amígdala dá valência, ou valor, aos estímulos. E ela se importa mais com as coisas ruins do que com as boas. Quando alguma coisa é percebida como perigosa, a amígdala dá o sinal para o resto do cérebro e, por consequência, para o resto do nosso corpo para responder ao perigo, e o nome que a gente dá pra essa corrente de reações fisiológicas é medo. Então, quando uma coisa é perigosa, a amígdala consegue tomar controle do resto do cérebro. Quando você está com muito medo, não sente fome, frio, nada, só medo. Obviamente que numa situação de perigo iminente, a amígdala grita pro resto do cérebro “pára tudo que a gente vai morrer!”, em situações que nos causam pânico por exemplo. Mas mesmo numa situação que não é de perigo iminente ou terrível, a amígdala controla áreas do nosso cérebro responsáveis por nossa tomada de decisão, como a parte ventral do córtex pré-frontal, de uma forma bastante forte. Eu não vou entrar nos detalhes científicos aqui, mas em resumo, a amígdala consegue suprimir a atividade de áreas bem importantes em tomada de decisão. Tudo isso só para dizer que quando temos medo, tomamos decisões menos racionais

Agora vem a segunda parte do problema, que é o fato de nós sermos seres sociais, que precisamos de um líder e que aprendemos a ver o mundo como “nós versus os outros”. Novamente eu estou simplificando o argumento, mas note: todas as espécies de animais não-humanos que vivem em grupos têm alguma hierarquia, e eles tendem a ser agressivos contra qualquer um fora do grupo deles, mesmo que seja um animal da mesma espécie. E nós humanos não somos muito diferentes disso: nossas estruturas sociais são hierarquizas e tendemos a hostilizar quem nós vemos como diferentes. No mundo no qual essa forma de se comportar foi selecionada, essa estrutura de “nós versus outros” era útil para garantir a proteção e sobrevivência dos indivíduos do grupo. Conforme nossas relações sociais foram ficando mais complexas, quem é o outro em contraposição a nós foi se tornando uma área cada vez mais cinzenta. Nós não vivemos mais em pequenas tribos, nas quais o inimigo era qualquer um tentando roubar nossos recursos ou nos atacando. Mas nós continuamos buscando um inimigo, pois foi assim que nossos ancestrais aprenderam que era o mundo. E, hoje, nosso inimigo é determinado pela sua cor de pele, nacionalidade, orientação sexual, gênero, etc.

Nós aprendemos a ter medo do inimigo. E, quando estamos com medo, nosso cérebro não processa informações da mesma forma que faria em condições “normais”. Então, qualquer retórica, por mais fraca que seja, que aponte um inimigo claro, terá um poder tão forte de persuasão: ela apela para nosso medo do desconhecido. Essa estratégia foi usada por líderes ao longo de toda a história da humanidade, e justificou as maiores atrocidades já cometidas pelos humanos, da caça as bruxas ao nazismo. 

O que eu sofro em entender é como, numa época na qual informação é tão acessível e democratizada, na qual não são só os ricos e poderosos que têm acesso a todo o conhecimento já produzido pela humanidade, as pessoas deixam-se levar por discursos tão rasos. Eu não tenho uma boa resposta para isso. Meu melhor palpite é que acesso à informação e conhecimento não se traduz em saber utilizar e interpretar tais recursos. Teorias conspiratórias e fake news são fáceis de serem digeridas, elas dão um sentimento de entendimento imediato, sem precisar gastar muita energia. Análises longas e complexas, artigos científicos, debates de ideias são difíceis, custosos. 

Minha conclusão é que, se nós queremos um mundo no qual as pessoas não sejam guiadas pelo medo, precisamos investir em educação, aquele velho clichê. Precisamos ensinar as pessoas a pensar, a analisar as informações que elas recebem, a entender a diferença entre um fato científico e uma opinião, a identificar falhas lógicas em argumentos, a verificar a confiabilidade das fontes. Precisamos de um sistema de ensino que valorize menos notas e “decoreba” e mais pensamento crítico. Mais filosofia, sociologia, antropologia. Mais amor, menos ódio.   

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Written by Juliana Popovitz

Nascida em Curitiba e atualmente morando em Baltimore, EUA. Psicóloga e cientista por paixão, doutoranda por necessidade. Fotógrafa amadora, nerd de carteirinha, gamer, apaixonada por gatos e vinhos. Péssima cozinheira e não sabe ver as horas em relógio analógico.

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