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Batman, lenda e símbolo

Todos que me conhecem sabem de minha admiração pelo Morcegão, esse personagem ficcional sempre despertou em mim grande curiosidade e admiração, uma das grandes razões disso deve ser do fato de ter sido o primeiro filme de super heróis que assisti no cinema.

O fato dele não possuir super poderes é algo fascinante, na minha opinião seria muito fácil “salvar o dia” quando você está blindado por sua capacidade de voar, emanar raios pelos olhos, mudar o pensamento alheio, ter garras de adamantium com fator de cura, estar protegido dentro de uma armadura extremamente poderosa e todas as outras vantagens que super poderes te garantem.  

O que gosto do Batman é que uma das mensagens do personagem exalta a importância do preparo, da estratégia e da perseverança.

E mais ainda, o personagem do Batman mais do que qualquer outro super-herói, é definido por sua psicologia. É o super-herói sem super poderes.

É claro que o fato dele ser bilionário o ajuda a combater o crime.

Mais profundo que isso

O Batman é um personagem tão complexo quanto contraditório, nele conseguimos ver o heroísmo, o medo e o lado sombrio, facetas psicológicas que conseguimos encontar em nós mesmos.

Vítima de uma tragédia que emergiu como símbolo de justiça. Um homem com raiva e dor procurando propósito em sua vida e com motivações que refletem geralmente nossas próprias motivações.

A vida dele inteira é uma busca para restaurar o sentido e nessa jornada conseguimos ver vários traços psicológicos negativos marcantes:

  • Ele passa muito tempo pensando nos criminosos de Gotham, tanto que esses pensamentos parecem afastar o resto de sua vida.
  • Ele parece não ter gosto nenhum pela vida, pois rumina e carrega a culpa associada pela morte de seus pais e a morte do seu segundo Robin, Jason Todd.
  • Como criança pequena observou impotente como seus pais foram assassinados, e como produto disso na sua idade adulta mostra sinais de entorpecimento emocional – incluindo desapego em seus relacionamentos e falta de emoções positivas.

E todas essas características são fascinantes porque são extremamente humanas. Numa era onde a imagem é mais importante que o verdadeiro conteúdo é de extrema importância termos ícones culturais que nos tragam uma visão mais sóbria e menos romanceada da vida.

História

O personagem foi criado em 1939, por Bob Kane, na década da Grande Depressão Americana, uma década marcada pela expansão urbana e crimes violentos. O personagem foi crescendo durante as décadas e a partir dos anos 90 começou ganhar contornos psicológicos mais densos.

A história do Batman alterna as escolhas entre o bom e mau, vida e morte. Um garoto que muito cedo aprendeu que a segurança é temporária, é frágil. O personagem foi todo construído em cima de uma criança com medo, insegura que sempre se questionava internamente se ficaria seguro novamente.

Geralmente quando as pessoas passam por eventos traumáticos isso faz com que elas questionem as crenças fundamentais que possuem. E é assim que o trauma pode ser uma força poderosa e positiva que induz o amadurecimento.

O trauma em Bruce Wayne foi uma força indutora que levou ele a se dedicar à fazer justiça e não vingança pela morte de seus pais.

 

Bruce Wayne é Theodore Roosevelt

Está aí um dos personagens históricos que eu mais admiro: Theodore Roosevelt.

Theodore foi o vigésimo sexto presidente americano, o primeiro presidente a ganhar o Nobel da Paz e é um desses caras que quando você olha para a história dele é impossível não ser inspirado e motivado. Ele teve uma vida lendária e concentrou em si vários atributos do homem vitoriano e do self made man (temas para outros artigos).

O pai de Roosevelt era o maior benfeitor e patrono de Nova York, ele fundou o Museu de História Natural, um dos fundadores da Sociedade de Ajuda à Criança e era similar à Thomas Wayne que foi o grande filantropo de Gotham City.

Como Bruce Wayne, Ted passou por uma grande tragédia familiar quando sua mãe e esposa morreram no mesmo dia. Ele foi até ao Badlands National Park (Parque Nacional de Dakota) provavelmente para se matar, porém nesse tempo ele forjou seu caráter naquela situação e voltou para se tornar comissário de polícia que andava de bicicleta à noite pela cidade. Chamavam ele de “cavaleiro solitário”.

É praticamente a mesma psicologia que vemos em Bruce Wayne.

Batman ou Bruce Wayne?

A morte de Martha e Thomas Wayne definiu o senso de propósito de seu filho que ganha seus contornos e ações através do vigilante noturno, e a cada dia ele é dividido entre uma vida normal e sua identidade secreta, o que instiga uma pergunta fascinante “quem é a pessoa verdadeira – Bruce Wayne ou Batman”?

Ele se torna a personificação do dualismo do que pensamos ser e do que queremos ser.

No começo do século XX o psiquiatra suíçoo Carl Jung explorou a ligação entre nossa mente consciente e inconsciente, Jung acreditava que dentro de nós havia essa luta entre um “eu aceitável” e “lado sombrio“. Batman encarna o “lado sombrio”, aparenta maligno e opera como algo maligno, ele opera fora da sociedade mas mesmo assim ele tem valores de um homem virtuoso. Ele é a união dos dois lados, o bom e o mau que coexistem na vida humana.

Símbolo

Na história Bruce Wayne decide tomar a identidade de um morcego, não apenas indo em direção ao seu maior medo como no medo da maioria das pessoas de criaturas aladas.

Em nossa cultura popular o morcego é uma ameaça, que vem na noite, algo que você realmente não consegue ver, que pode te morder e ainda chupar seu sangue.

Se olharmos para o período medieval podemos notar a iconografia das asas do morcego como sendo algo demoníaco, maligno.

Se olharmos para a história temos várias pessoas que tomaram posse de símbolos que outrora representavam opressão, ódio e medo e os tornaram símbolos de esperança. Um grande exemplo é a cruz, símbolo de morte e tortura durante o período da expansão romana se tornando o símbolo de salvação e perdão através do Cristianismo.

Bruce Wayne fez a mesma coisa tomando posse de um símbolo que temia, que era imprevísivel, que representava o caos da noite e do mundo.

O Morcegão pode ser visto como uma bela alegoria da nossa capacidade de lidar com as grandes dificuldades e imprevisibilidades da vida, da nossa complexa psicologia e de que é normal conviver com batalhas intensas internas.

É claro que há outras formas de lidar com traumas além de sair combatendo o crime com os próprios punhos e espancando bandidos, como por exemplo psicoterapia, mas isso é assunto pra outro artigo.

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Diego Mendes

Written by Diego Mendes

Um pensador, curador de conteúdo, desenvolvedor de sistemas de 36 anos que ama camelos e que tem buscado fazer a melhor jornada nessa vida. Sim, curador de conteúdo, parte do que escrevo são traduções de grandes artigos escritos em inglês ou espanhol.

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