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Briga Imaginária

Um dia eu tive uma briga imaginária com um amigo. Briga imaginária? Como assim? As regras são simples: 1) não há contato físico; 2) um inicia dizendo o que gostaria de infringir ao outro, sendo limitado somente por sua criatividade e ódio pontual do momento, depois é a réplica do amigo, e assim sucessivamente até que a graça da brincadeira acabe.

Tudo começou por uma bobeira. Foi em uma noite que meu amigo foi posar lá em casa, depois de mais um dia típico de duas adolescências tardias. Seria Dennis Quaid ou Pierce Brosnan quem protagonizou o “O Dia Depois de Amanhã”? Eu sustentava que era um e ele o outro. Mas até aí tudo bem, o problema é que ele é do tipo que fala: “posso não saber do que estou falando, mas sei que estou certo!”. E eu não conseguia mais engolir aquilo. Então a discussão acalorou-se até que um CD foi apostado. Aí a coisa ficou séria.

No dia seguinte seguimos ao estágio juntos. Um prédio de 14 andares. Ao chegarmos lá cada um foi para a sua sala o mais rápido que pode para averiguar qual seria a resposta daquela vital controvérsia, pelo menos para aquele dia. Eu, por trabalhar no quarto andar, tive a vantagem do tempo, já que o elevador vai parando de andar em andar e o dele era no 10º. Entrei na sala e liguei o computador, o que pareceu uma eternidade, mas assim que consegui abrir o browser a minha caixa de e-mail denunciava uma postagem fresca do meu amigo, cujo título era “Meu nome é Dennis Quaid” e o conteúdo já reclamava o prêmio e minhas desculpas por chamá-lo de pilantra por defender com vigor algo de que não tinha certeza. Como pode? Ele chegou mais tarde na sala dele e já conseguiu acessar a internet e ver o resultado? Repentinamente todos na sala perderam o acesso à internet, o que me impossibilitou de ver o resultado por mim mesmo. Isso só significava uma coisa, era o esforço do trabalho de uma mente doentia e ambientalmente irresponsável. Pois, depois de deixar o computador ligado de um dia pro outro, o que explica o rápido acesso, ainda consegue ilicitamente desativar nosso Proxy para que eu não pudesse ver o resultado daquela querela.

Não demorou muito para ele descer ao meu andar, com seu sorrisinho triunfante gabola de sua suposta conquista. Eu não agüentei. Personificando a ignorância, soquei-o com gosto no estômago, e assim que ele se ele se curvou eu tasquei-lhe uma cotovelada nas costas. Enxotei-o da sala, na frente de todos, como se fosse um cachorro que deita na nossa cama. Sei que tem gente que não se importa com o cachorro na cama, mas aquele cadelão era inadmissível em minha presença. Pedi para o que segurança não o deixasse entrar naquele andar, pois além de irritante ele, supostamente, era o responsável (ou irresponsável) pela queda da internet.

Na meia hora seguinte foi difícil voltar a trabalhar, mas quando estava quase começando a esfriar a cabeça, algo surreal acontece. Escuto som de tiros e o janelão da sala estraçalhando-se harmoniosamente quando traspassado pelos projéteis, depois disso vejo meu amigo invadindo a sala como se fosse das forças especiais de qualquer país descentemente beligerante. Porque, munido de uma corda de rapel e uma submetralhadora, pula do andar dele, fazendo um arco perfeito e totalmente calculado, atinge magistralmente o quarto andar atirando em tudo o que via. Admirado com a desproporcional resposta, só deu tempo de eu empurrar a cadeira para trás e cair para debaixo da minha mesa, de onde consegui pegar meu arco e flecha. Fui forçado a me desentocar para ter melhores chances de sobrevivência e contra-atraque. Ao correr para me jogar ao outro lado do biombo da baia vizinha, fui seguido por um rosário de tiros e pelo eco das palavras “era o Denniiiis Quaaaaaaaaaaaid!!!!”. A salvo na outra baia só me restou entesar o arco contra meu amigo para flechá-lo no peito. Mas, como se fosse o senhor do tempo, ele conseguiu se esquivar com facilidade e começou a atirar no biombo para que os projéteis me acertem no do outro lado. Como a flecha já tinha uma rota, apesar do destinatário se mover antes do seu fim, ela acaba acertando um extintor de incêndio, que ao ejacular o conteúdo no ambiente desvia a sua atenção. O que me deu preciosos segundos para escapar para o banheiro.

Ele me seguiu. E neste momento é desnecessário falar que enquanto ele estava andando compassadamente continuou a descarregar as duas UZIs pelo trajeto, fazendo uma chuva de papéis picotados, lâmpadas quebradas e bicas d’agua nos galões d’agua, tudo em câmera lenta (pois, como já mencionado, ele é o senhor do tempo) tudo isso em meio uma gritaria abafada de pessoas desfocadas (alias, a partir de agora vou começar a chamá-lo de LoT – Lord of Time – por que quando ele conta a mesma história parece que tudo ocorreu em câmera lenta). Abriu a porta do banheiro com uma truculência fenomenal e me procurou dentro de cada cabine, mas ao escutar meu barulho dentro da última foi certeiro a ela. Sem pudor, escancarou a lânguida portinha, mas mal sabia ele que uma bomba improvisada, feitas das sobras de rojões da festa de São João do escritório e liquid-paper, lhe recepcionaria com uma explosão esbranquiçada que o impediria de me ver fugindo pela janela do banheiro, que desemboca direto na escada de incêndio.

Subi os seis andares até a sala onde LoT trabalha, quatro degraus por vez. Primeiro para despistá-lo, pois quem seria o idiota que não debandaria do prédio? E segundo, para ver se encontrava alguma sobra de arma em sua mesa, na tentativa de acabar com a clichesística orgia de sangue que ele estava promovendo no prédio. Chegando em sua mesa, tamanha minha surpresa ao encontrar uma espada samurai em cima dela além de uma antiga Colt Mustang 380 já carregada e com mais alguns pentes prontos para o uso. Quando passo a mão naquele tímido arsenal começo a escutar um pequeno tique-taque, que me assegura que aquele andar inteiro irá pelos ares em poucos segundos. Então, corro o mais rápido do que eu consigo para o hall dos elevadores e vejo que a porta do elevador está aberta sem o dito-cujo lá, pareceu-me a ocasião perfeita para pular nos cabos do elevador e descer instantaneamente por aquele corredor vertical.

A explosão do 10º andar foi algo violento, porém lindo para as pessoas que assistiam de fora a evacuação emergencial do prédio. Todas as janelas que ladeavam o prédio foram expelidas em milhões de pedaços de uma única vez. Para mim foi mais tenso. Foi como se uma língua de fogo entrasse pela aquela garganta de concreto, perseguindo-me naquela queda guiada pelos cabos. Então, me apercebi de algo. Aquilo estava muito perfeito, as armas em cima da mesa, o tique-taque, a porta do duto do elevador aberta sem o elevador. Mr. LoT (senhor senhor do tempo???), como um melhor inimigo, me conhecia profundamente e sabia que eu não abandonaria sutilmente o prédio, astutamente ele armou tudo isso para que o fim dessa história fosse escrita a seu modo. Adivinhando os meus passos, já não estaria ele me esperando do outro lado do duto com uma armadilha? Como eu não queria fica na probabilidade, prontamente tirei a Colt e comecei a atirar para baixo e a todo fôlego proferindo “era o Piiiiieeeerce Brooooosnaaaaan” além de uma inarrável ladainha de impropérios, para incitar a raiva de meu predador e tirá-lo de sua tocaia. Mal comecei meu ato e imediatamente fui recepcionado com tiros do térreo seguidos de um sonoro “Nãããããoooo!!!”, então comecei a diminuir minha velocidade com a mão esganando o cabo de aço (nesse momento já estava com uma luva de couro), mas mesmo assim caí com uma grande velocidade sobre o teto do elevador, que me amorteceu a insalubre queda. Ao levantar estava cara-a-cara com meu íntimo inimigo, e eu já sabia o desfecho desta batalha. Tudo se acabaria com uma coreografada luta de espadas no saguão da empresa, eu com uma katana e ele com um sabre de luz. E lutaríamos como se o que estivéssemos fazendo não fosse crime, e as baixas civis deste ato fossem socialmente aceitáveis devido à gravidade do que estava em jogo.

Vou lhes poupar os detalhes desta parte da peleja. Como já devem saber, independente do desfecho da briga imaginária travada por mim e LoT, eu é quem estava errado. A mim coube a humilhação da derrota e aceitar pagar o acordo, entretanto demoraram seis anos para eu engolir a última gota de brio e acabar entregando o CD. Moral da história: você pode até saber do que ta falando, mas mesmo assim pode ser que você não esteja correto sobre o assunto.

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Written by Paulo Cordeiro

É um guarapuavano tão vadio, mas tão vadio, que pensou seriamente em sair do Kamellos só para não escrever este texto. Gosta de fazer massas com sua máquina panificadora e gostaria de ter inventado o Waze. Um dos 4 Seres Viventes.

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