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Diário do cientista

A vida nômade do cientista – parte 1

Ciência é colaborativa. A ideia de que grandes descobertas da atualidade são feitas por um cientista gênio solitário é bem inadequada. Ciência avança coletivamente, por grupos de pessoas inteligentes pensando no mesmo problema.

Cá estou novamente num avião prestes a pousar em outro país para discutir ciência longe de casa. Só no ano passado, acho que estive em situação similar pelo menos oito vezes, e olha que não sou ainda uma professora estabelecida. O cientista no exterior é extremamente conectado e internacionalizado. A disseminação dos resultados da pesquisa de um cientista não se faz somente online ou em forma de artigos ou livros publicados, mas também em pessoa. Congressos e conferências representam oportunidades únicas em explicar à comunidade científica o trabalho publicado na forma de um artigo ou livro por exemplo. Dependendo da fase na carreira do cientista, o trabalho é apresentado na forma de discussão de um poster ou como palestra. Esta também é uma ótima oportunidade de avaliar criticamente o seu próprio trabalho por olhares de cientistas diferentes. Após apresentados os trabalhos, geralmente os cientistas se conectam naturalmente e estabelecem redes de colaboração que vão além da admiração e das perguntas. Contarei aqui um exemplo de como conferências e viagens tem sido importante para a disseminação e concretização do meu trabalho e busca incansável por respostas.


Em 2016 fui a um congresso em Halifax, Canada, onde apresentei os resultados iniciais do meu projeto (que executei em Ottawa, Canada). Nesse trabalho, eu investigo uma doença genética chamada “epilepsia piridoxina-dependente”. Nessa doença, há um defeito genético que leva o organismo a metabolizar aminoácidos (que ingerimos ao comer carne, ovos, leite e etc) incorretamente, levando à produção de uns compostos tóxicos que inativam a piridoxina, também conhecida como vitamina B6. A falta dessa vitamina no cérebro leva à uma séria epilepsia que, nesse caso, se manifesta logo após o nascimento. Nesse congresso em Halifax, conheci uma importante cientista da área, Clara. Após discutirmos sobre meus resultados, naturalmente nos conectamos e nos tornamos colaboradoras. Alguns meses depois, Clara organizou uma pequena conferência em Vancouver na qual ela me conectou a outros pesquisadores, incluindo Johan e Curtis do Colorado (Estados Unidos), que também foram convidados. Nesse pequeno encontro com estes especialistas em metabolismo e epilepsia, discutimos por horas diversos aspectos da biologia desta doença e nossos resultados. Foi extremamente produtivo! Infelizmente não tive tempo para passear em Vancouver mas aparentemente é uma cidade lindíssima. Garanto que as ideias que tivemos durante essa pequena conferência foram extremamente importantes e, para mim, foi melhor que fazer turismo! No ano seguinte, Clara se mudou (junto com seu laboratório e pesquisas) para Amsterdam, na Holanda. Ela então me colocou em contato com outros pesquisadores nessa área da Holanda e tive a oportunidade de encontra-los e discutir ciência e nossas ideias em 2017. Resultado: hoje trabalho diretamente com Curtis e Johan, do Colorado, e eles estão estabelecendo uma colônia dos peixinhos (zebrafish) que desenvolvi com o mesmo defeito genético e manifestações da doença (epilepsia piridoxina dependente). Pude compartilhar com pesquisadores de Utrecht-Holanda (e demonstrar em pessoa) alguns métodos que desenvolvi para minha pesquisa, o que os tem ajudado a avançar. Os mesmos pesquisadores de Utrecht me ajudaram muito com medidas de alguns compostos que eu não sabia fazer no Canada (sim, meus peixinhos cruzaram o Atlântico e foram analisados em Utrecht!). Clara tem sido uma colaboradora excepcional e expandimos nossa parceria para varios outros projetos, no estudo de outras epilepsias. Alem da ajuda e participação nos meus projetos, analisamos juntas um novo tipo de epilepsia que descobrimos em 12 crianças de vários países com uma mesma mutação genética. E agora estou a caminho da Inglaterra para conhecer uma nova colaboradora que tem interesse e ideias em comum (em relação às epilepsias genéticas infantis) e vamos ver o que podemos descobrir juntas!


Apesar de, nesse mês de junho, eu ter me mudado para os Estados Unidos e não pretender trabalhar com estas epilepsias genéticas no meu novo laboratório, minha pesquisa  permanecerá ativa por meio dos colaboradores que continuam colhendo e disseminando resultados. Curtis e Johan, ao estabelecer a colônia dos meus /nossos peixinhos mutantes, vão (espero eu!) fazer avanços importantes e eu ajudarei remotamente. Estamos sonhando com o desenvolvimento de um teste do pezinho (aqui chamado newborn screening) para diagnóstico dessa doença nos primeiros dias de vida do bebezinho. Os pesquisadores de Vancouver, em breve, testarão uma droga que identifiquei no meu trabalho científico em um camundongo geneticamente modificado que eles estão desenvolvendo para essa doença. Se essa droga for efetiva para aliviar os sintomas do camundongo epilético, este seria o argumento necessário para pleitear um teste clinico desta droga em humanos. Teste esse que seria coordenado provavelmente por Clara, envolvendo os pacientes dela em Amsterdam. Hoje em dia aquela imagem do cientista como gênio solitário não faz sentido. Ciência é colaborativa, é feita por varias pessoas e em vários centros de pesquisa no mundo, ao mesmo tempo. Os problemas científicos da humanidade são muito complexos. Câncer, diabetes, doenças cardiovasculares, Alzheimer, epilepsia... quanto mais a gente pesquisa, mais perguntas e mais dúvidas surgem. Precisamos de gente, mentes e diversidade de pensamentos e olhares para entender esses grandes problemas da saúde do homem. E olha que não estou falando de pesquisas de cosmologia ou partículas, que geralmente não incluem uma ou duas dezenas de pesquisadores como a minha pesquisa, mas centenas (até milhares) em cada projeto! Todos pensando juntos e olhando para o mesmo problema. Tentando, exaustivamente encontrar respostas e soluções para melhorar a vida das pessoas. Gastando noites, fins de semana, pensando, experimentando, calculando... seja para encontrar a cura de uma doença ou para saciar a nossa curiosidade sobre a vida, o universo, sobre quem somos nós. O cientista é incansável; não só no trabalho que por vezes parece interminável, mas não nos cansamos da beleza da vida e do universo. Pés no chão, após um longo vôo, estou agora com os olhos e a mente aberta para aprender com os colaboradores da terra da Rainha Elizabeth que vou encontrar logo mais! 



Ciência é colaborativa. A ideia de que grandes descobertas da atualidade são feitas por um cientista gênio solitário é bem inadequada. Ciência avança coletivamente, por grupos de pessoas inteligentes pensando no mesmo problema.

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Izabella Agostinho Pena

Written by Izabella Agostinho Pena

Brasileira, Mineira de "Belzonti" (sim, fazemos pão de queijo), cientista e sonhadora. Aventureira pelo mundo, seguindo o sonho da ciência e em busca da verdade. Doutora em Genética e trabalhando como pesquisadora pós-doutora no Canadá, de malas prontas para uma nova aventura no MIT a partir de Junho de 2018. Além da ciência, Izabella se interessa por educação, fotografia, poesia, esportes e cultura.

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