Quando éramos mais jovens, haviam segredos, passagens secretas, violão e meditação. Naquela época, fugíamos para o enésimo andar do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG e, de lá, observávamos aquela bela vista que ia da lagoa da Pampulha até o estádio de futebol (Mineirão). Os Ipês floridos, cada semana com sua cor característica, davam um ar pitoresco à tela do fim da tarde. Uma pena que ninguém a pintou, restou apenas o quadro na minha mente. E assim, sem motivo, até mesmo sozinha eu podia subir naquele lugar secreto e admirar a paisagem em um momento de paz. Naquela época os amigos chamavam aquele lugar de “escritório“, não é relevante o porquê.

Eventualmente, um dos amigos levava um violão e agora a paisagem e o por do sol poderiam ter um tema musical, somando o canto dos passarinhos aos imaginários bandolins de Montenegro. Os amigos relaxavam em um intervalo da pesquisa que continuaria a todo vapor após uns 20 ou 30 minutos de sossego. Era assim e era bom jogar conversa fora, jogar a conversa do alto do sexto andar! Misturar coisas sem sentido e sem seriedade à assuntos da maior complexidade era uma arte. E era bom.

Era bom, mas acabou. Vivemos correndo agora. Ser adulto de verdade é difícil e estressante. Não admiramos mais o por do Sol, sequer há lugar alto para subir e se esconder. Não jogamos mais futebol. Não nos encontramos mais, ou para alguns, quem sabe uma vez por ano, apesar de alguns dos amigos ainda morarem na mesma cidade. O sucesso é difícil e cada um o encontrou em um canto do mundo. Hoje escritório é outra coisa, é nosso lugar de trabalho e não de fuga. Para os realizados, que amam o que fazem, este é o lugar onde as duas coisas se realizam: trabalho e prazer. É mais raro, é admirável e belo, mas é raro. O segredo é encontrar o “escritório” no escritório. Se esforçar para conseguir admirar um belo por do sol em meio aos experimentos, ou quem sabe ver o Sol nascer em uma nova ideia. Curtir uma boa música durante o experimento, ou rir de alguma piada sem graça mesmo quando o trabalho fracassa. Encontrar alegria em pequenos momentos tem sido essencial na minha formação e profissão de cientista. Quem sabe, o “escritório” esteja na música em meio aos ramos secretos que se traçam computacionalmente em uma árvore filogenética, ou em chorar de alegria quando finalmente o segredo foi decifrado. Mas aqui o segredo já não é mais coisa de jovenzinho…

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Izabella Agostinho Pena

Written by Izabella Agostinho Pena

Brasileira, Mineira de "Belzonti" (sim, fazemos pão de queijo), cientista e sonhadora. Aventureira pelo mundo, seguindo o sonho da ciência e em busca da verdade. Doutora em Genética e trabalhando como pesquisadora pós-doutora no Canadá, de malas prontas para uma nova aventura no MIT a partir de Junho de 2018. Além da ciência, Izabella se interessa por educação, fotografia, poesia, esportes e cultura.

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