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Guerra do Velho

Dificilmente eu sou fisgado por uma capa, uma frase ou uma chamada usada para popularizar algum livro. No entanto a sentença “No meu aniversário de 75 anos fiz duas coisas: visitei o túmulo da minha esposa, depois entrei para o exército” me pegou pelos gorgumilos! Ela estampa a contracapa da edição brasileira de A Guerra do Velho, de John Scalzi.

Fiquei com essa frase na cabeça por dias, tentando imaginar de que forma uma pessoa de 75 anos poderia se tornar um soldado em uma batalha. Compartilhei o interesse com meu amigo Adriano, que também é colunista aqui no Kamellos, e ele me disse que estava com a versão americana e que estava com vontade de ler, pois havia ouvido muita coisa boa sobre o livro. Decidi comprar, e quando chegou, entrei em contato com ele novamente.

Começamos a ler, eu aqui em São Paulo e ele no Paraná, e regularmente nos falávamos pelo Facebook e Skype para comentar cada trecho lido. Foi sensacional! Depois que terminamos, tivemos a mesma ideia: escrever uma coluna contando a experiência com o ponto de vista de cada um sobre o livro. O que você está lendo é o resultado disso!

Acredito que esse foi o livro que eu mais me preparei mentalmente para ler. Pode parecer bobiça, mas eu listei as expectativas, projetei situações na minha mente a partir do que li sobre o livro e fui para a leitura com uma porção de lacunas que eu esperava que fossem preenchidas. E foram! E como foram!

Old Man`s War 4
Imaginei bastante coisa, mas nenhum pensamento passou perto disso.

O livro parte da premissa de que quando as pessoas completam 75 anos, elas podem se alistar nas Forças Coloniais de Defesa e representar a terra em uma batalha interestelar. A ficção é contada pelo ponto de vista de apenas um personagem, John Perry, que é o protagonista e também o narrador da história.

Apesar de ter apenas um ponto de vista, de forma alguma ela se torna limitada. Scalzi é um exímio escritor, tem uma linguagem ágil e consegue oferecer ao leitor tudo o que ele precisa saber. Ele explora temas variados como relacionamentos, envelhecimento, amor, ética, moral, e o autor não perde a mão em nenhum momento. Tem a habilidade de falar sobre vários assuntos ao mesmo tempo e argumentar tudo de uma forma concisa e inteligente, sem ser raso e ao mesmo tempo sem se aprofundar muito, tendo de usar linguagem que se torne enfadonha e inacessível ao leitor.

A estrutura do livro é o deleite para perfeccionistas: dezoito capítulos divididos em três partes de seis capítulos cada. São seis de introdução, colocando o leitor dentro do universo vivido pelo protagonista, seis de treinamento e desenvolvimento da trama e mais seis que encerram a obra com clímax e conclusão. Coisa linda de ver!

A edição brasileira é sensacional. Trazida pela editora Aleph, tem pouco mais de 350 páginas, papel de qualidade, acabamento fantástico e uma capa muito bonita com a arte do artista Nicolas Bouvier, conhecido como Sparth. O livro é apenas a primeira parte de uma trilogia, que ainda conta com The Ghost Brigades e The Last Colony, esses ainda não disponíveis no Brasil, mas que devem aparecer em breve por aqui. (assim esperamos!!!)

Old Man`s War
A fantástica arte da capa!

Antes de passar para a parte do Adriano, devo mencionar a tradução. Ela é excelente, um trabalho fantástico do tradutor Petê Rissati. Em um dos nossos papos sobre o livro, separei alguns termos e nomes para comparar com a edição americana, e essa foi uma das nossas melhores conversas. Os termos usados na versão brasileira são divertidíssimos e ajudam muito no clima do livro. Quando você conhecer o Willie Rodinha vai entender o que quero dizer 😉

– – –

A Guerra do Velho é o primeiro de uma série de livros premiados de ficção cientifica escrito por John Scalzi. O cara é formado em filosofia pela Universidade de Chicago, então você já pode esperar que crises existenciais, explorações da natureza humana, etc, estejam presentes. Bom, nada menos a se esperar de um livro que começa com a seguinte frase: “No meu aniversário de 75 anos fiz duas coisas: visitei o túmulo da minha esposa, depois entrei para o exército” Certamente uma frase pra entrar nas melhores aberturas de um livro da história! A premissa é fantástica. Antes mesmo do lançamento do livro aqui no Brasil pela Aleph neste ano, este livro já estava na minha lista de leitura. Aí quando o Chico falou que estava afinzaço de ler, não restou dúvidas: CLUBE DO LIVRO! Mesmo estando separados por uns 1000km, a tecnologia jogou a nosso favor: skypada!

Portanto, essa resenha é fruto de nossas conversas sobre o livro. Talvez a primeira resenha escrita à quatro mãos. (Ou seria à duas mãos? O Chico usa os pés também pra digitar, então definitivamente seriam à quatro mãos e dois pés)

Livros são sempre um assunto interessantíssimo para se conversar e encontramos no “Guerra do Velho” um prato cheio para discussão. O livro é muito divertido com uma escrita agradável. Mesmo em momentos em que entram ideias cientificas mais “pesadas”, o autor dá um jeito de colocar humor e um tom agradável à narrativa. O livro é uma ficção cientifica “hard”, por tratar muito bem dos dados científicos, mas sem se tornar chato. A explicação sobre multiversos, por exemplo, é muito didática, ainda que imagino que o autor irá expandir o conceito em outros livros da série. Exploremos, então, alguns dos assuntos mais interessantes do livro.

Old Man`s War 2
Medo de Rraeys? Eu como esses aliens no café da manhã!

Questões tecnológicas, metafisicas e filosóficas. Algo sempre esperado em livros de ficção científica é que a descrição de teorias científicas e tecnologias inovadoras sejam o ponto alto da história. Muitas vezes esses elementos se tornam os verdadeiros protagonistas. A ciência e a tecnologia são tão importantes nesta vertente literária que o nível em que elas são descritas serve para classificar subgêneros: ficção científica “dura” ou “leve” (em inglês: “hard” e “soft”).

A ficção científica “dura” é caracterizada por uma atenção rigorosa a detalhes das ciências naturais, especialmente física, astrofísica e química, ou uma descrição acurada de mundos em que uma tecnologia mais avançada tornaria possível. São exemplos de escritores nesta vertente, mestres como Isaac Asimov, Arthur C. Clarke, que inclusive possuem formação em química e física, respectivamente.

Já a classificação “leve” se refere à trabalhos baseados em ciências sociais como psicologia, economia, sociologia, história etc. São exemplos dessa corrente Philip K. Dick e Ray Bradbury. Mas, como geralmente acontece, os rótulos são ultrapassados por escritores geniais. E é o que vemos com John Scalzi, que, em seu A guerra do Velho consegue juntar elementos científicos e tecnológicos complexos com questões filosóficas profundas. E isso tudo sem pesar a mão, deixando partes complicadas, como a explicação de multiversos, com um tom leve e humorístico.

A habilidade da escrita do autor impressiona, pois ele consegue nos conduzir por um mundo bem construído e pelas inquietações do personagem principal como se realmente estivéssemos lá, acompanhando cada explosão e cada morte. Sem nos aprofundarmos muito, pois isso traria spoilers na história, questões tecnológicas que estão sendo pensadas hoje em dia para resolver limitações corporais e mentais dos humanos são apontadas pelo autor de maneira assustadora. Talvez a pergunta transcendental “como seria a humanidade se pudéssemos melhorar as limitações corporais e mentais humanas?” resume toda a busca filosófica adjacente na história do livro. Questões sobre mortalidade, ética, enfim, o que nos faz humano permeiam toda a narrativa.

Qual será o futuro da natureza humana daqui a 100, 500, 100 anos? Difícil dizer, mas enquanto não chegamos lá, uma boa maneira de refletirmos sobre o assunto é lendo bons livros e discutindo sobre suas ideias!

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Written by Chico Milk

Chico Milk nasceu em Guarapuava City Paradise. Um dos quatro seres viventes. Guitarrista low profile, amante de dias frios, chuvosos e cinzentos, bebedor nato de café com leite, leitor de livros e quadrinhos.

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