in

Jogos de tabuleiro  e virtudes

 

É possível se desligar do ciber-universo e ainda assim encontrar diversão? É possível se divertir com um grupo de amigos sem precisar de nada eletrônico?

Há uns 10 anos atrás eu descobri os jogos de tabuleiros. Ou melhor, redescobri. Desde pequeno conhecia os jogos de tabuleiro tais como Monopólio, Jogo da Vida e War. Quando casei, tentamos jogar War algumas vezes, mas uma série de desbalanceamentos no jogo nos frustrava. A sorte nos dados, a possível expulsão prematura de um jogador que ficava forçado a esperar o resto acabar e o elevado nível de competitividade causava mais frustração que a prazerosa experiência de jogar com amigos devia proporcionar.IMG_20160529_121442383

Mas não desistimos. Compramos jogos nacionais como Clue e Interpol e tivemos tempos muito divertidos. Mas foi somente quando fomos para Portugal e comprei alguns jogos que nossos olhos se abriram.

Os jogos comprados foram Carcassonne, Caravelas e Stone Age. Entramos por um caminho sem volta. Descobrimos o nicho dos boardgames modernos, principalmente os chamados “eurogames”, que primam pelo design, jogabilidade, mecânicas de jogo bem balanceadas, proporcionando horas incansáveis de diversão.

Em Carcassonne cada peça (tile) representa um pedaço do sul da França. Cada um joga uma nova peça, e com ela você procura expandir (ou iniciar) seus domínios de uma cidade, uma estrada, um mosteiro ou campos. No momento em que uma nova peça é adicionada, o jogador pode decidir colocar um meeple (marcador) em uma das opções mencionadas. O jogo é divertidíssimo e rápido. Além disso conta com várias expansões pra deixar o jogo ainda mais imersivo. Até hoje ele “vê mesa” direto e já iniciamos muitos amigos nesse agradável hobbie através deste jogo.

carcassonne meeple

Caravelas é um jogo bem temático e combinou muito bem com o local onde compramos: Portugal. O tema do jogo é os Descobrimentos Portugueses nos séculos XV e XVI e sua contribuição para a riqueza de Portugal, simbolizada no Mosteiro dos Jerónimos. Esse mosteiro foi construído somente com o imposto de 5% sobre as especiarias trazidas pelas caravelas. À medida que você vai descobrindo e navegando por certas regiões do mapa com peças que lembram caravelas de madeira, você recebe mercadorias específicas que podem ser trocadas por pontos de vitória no retorno para o porto de Lisboa.caravelas

Stone Age é um xodozinho e até hoje um dos jogos mais jogados aqui em casa. Já virou cativo de férias e sempre que apresentamos ele para novas pessoas, imediatamente cai no gosto. Mas ele não é um jogo tão simples, e exige um pouco mais de estratégia e concentração. A ideia é a de que os jogadores trabalham como caçadores, coletores, agricultores e fabricantes de ferramentas, devendo reunir recursos e crescer com a sua população. É um ótimo jogo de administração de recursos, pois você deve ter certas combinações para comprar cartas especiais ou para fazer pontos; além disso você precisa alimentar sua tribo, uma tarefa constante e penosa ao longo do jogo. Apesar de se utilizar muitos dados e contar algumas vezes com sorte, a estratégia conta muito para atenuar possíveis faltas de sorte e potencializar suas buscas por recursos. Um jogo que já jogamos mais de 60 vezes e não enjoamos.

stone age

Muito mais jogos podem entrar na lista dos “jogos que se devem jogar antes de morrer” como:

Puerto Rico, um jogo com fator sorte quase zero, com administração de recursos de uma colônia. Não existem dados neste jogo, e a vitória fica com quem soube se aproveitar melhor dos recursos, habilidades, plantações e construções disponíveis. Um dos melhores jogos em todos os rankings mundiais. Viciante!puerto rico

Takenoko, cuja cara infantil trai sua jogabilidade bastante estratégica, no qual você controla um jardineiro e deve construir um jardim com bambus e alimentar o panda.IMG_20160424_010604712

Ticket to ride, o jogo de construção de rotas de trens também muito divertido e conta com pouca sorte. E poucas vezes alguém sai chateado em perder.

Pandemia, um jogo cooperativo, em que todos os jogadores devem vencer as doenças espalhadas pelo mundo antes que aconteça uma pandemia mundial.

Em 7 wonders os jogadores assumem o papel de líderes das principais cidades da antiguidade  e competem por recursos, poder militar, habilidade comercial, desenvolvimento social e tecnológico, além de terem a possibilidade de construir suas próprias maravilhas. É um jogo muito gostoso de ser jogado em até 7 jogadores, pois as jogadas são simultâneas e ninguém fica esperando muito tempo para fazer sua partida.

As principais características que eu e minha esposa procuramos quando pensamos em jogos de tabuleiro são:

Jogabilidade: queremos jogos que possamos jogar 10, 20, 30, enfim, muitas vezes!

Pouca sorte: claro que o fator sorte é importante, mesmo na vida real J, mas é muito legal saber utilizar estratégias que diminuam bastante esse fator;

Fator sociabilidade: pra nós, não adianta ser um jogão se nem todos estão se divertindo da mesma maneira. Sempre procuramos escolher jogos em que o tempo de espera “sem fazer nada” seja mínimo. Muitos jogos fazem com que os jogadores façam jogadas simultaneamente. Outra coisa no fator sociabilidade: nada de um jogador ser cortado logo e ter que ficar esperando enquanto os outros finalizam a partida. E por fim, e isso é pessoal, optamos por jogos que tenham o mínimo de “sacanagem” com o outro. Claro que isso depende de jogador para jogador e em qualquer jogo pode-se sacanear os outros. Mas é que, jogos como War, são feitos para que algumas pessoas saiam chateadas com outras. Quem nunca ficou com raiva do amiguinho que dizimou seu exército, mesmo isso não sendo o objetivo dele?

Eu tenho aprendido muito com os boardgames, para além das caixinhas e das pecinhas. Penso que jogar este tipo de jogo traz um aprendizado muito interessante e ajuda até a formar caráter.

boardgames medievalAs virtudes humanas bíblicas enfatizadas na Idade Média – prudência, justiça, fortaleza, temperança – podem ser relacionadas ao ato de jogar boardgames:

. a virtude da prudência se relaciona à ideia de saber discernir o verdadeiro bem e a escolher os justos meios para o atingir. Para os boardgames essa virtude é fundamental: como escolher a melhor estratégia, sem precisar trapacear e, algumas vezes, até ter a sabedoria de não sacanear o colega para não causar estresses desnecessários.

. a justiça, sinaliza uma constante e firme vontade de dar aos outros o que lhes é devido. Algumas vezes, nos jogos, podemos injustiçar alguém. E isso pode ser causado tanto por retirar algo merecido de alguém quanto dar algo que não é merecido. Por exemplo, se você der um item a mais para um jogador, por pena ou por erro honesto mesmo, você estará prejudicando um outro jogador que não recebeu. Desta forma você não premia o mérito de quem está se esforçando honestamente. Uau, que lição de vida!boardgames medieval2

Outro exemplo: se você dá dicas para um jogador em detrimento de outro, você está retirando o direito de igualdade que pressupõe que todos os jogadores devem ter as mesmas chances de vitória. Aprendendo política através dos boardgames!

. fortaleza é a virtude que assegura a firmeza nas dificuldades e a constância na procura do bem. Mesmo quando sabemos que não vamos conseguir vencer desde cedo no jogo, não devemos desistir, devemos continuar a jogar como bons companheiros, tirando lições de nossos erros e procurando melhorar cada vez mais. Tem jogos que eu demoro para “pegar”, mas procuro analisar e aperfeiçoar minhas possibilidades. Claro que algumas vezes “a constância na procura do bem” nos faz desistir daquele jogo que não gostamos ou não dominamos e procuramos outros, que nos façam mais bem. Aqui o importante é a diversão e a comunhão com amigos.

. a temperança talvez seja a virtude mais importante ao jogar boardgames. Ela aponta para uma moderação da atração dos prazeres, assegurando o domínio da vontade sobre os instintos, proporcionando o equilíbrio no uso dos bens criados. Os boardgames são um hobbie, algo prazeroso e, portanto, não devem tomar o centro da sua vida. Antes vem Deus, a família e o trabalho. Muitas vezes vemos pessoas desequilibradas em seus hobbies, colocando eles acima de todas as outras coisas, gastando muito dinheiro e tempo. O hobbie é algo para se curtir e duplamente alegre é o homem que encontra uma companheira que compartilha dos mesmos gostos! Eu tive a sorte de ter ao meu lado alguém que adora passar horas jogando. Mas a virtude da temperança vai além de ter domínio sobre nossa vontade de ficar fazendo somente o que nos agrada, entra também no campo do controle de nossos instintos. Quem nunca sentiu frustração ao perder em um jogo? Ou até mesmo raiva? Ou esboçou um “jubilo exacerbado” ao comemorar vitórias? Portanto, os jogos de tabuleiro são uma ferramenta excepcional para desenvolvermos a virtude da temperança, do autocontrole. Aprender a perder e a vencer em um jogo de tabuleiro, lidar com nossos sentimentos negativos e positivos é uma lição pra vida.

 

Penso que os boardgames só têm vantagens: você se sociabiliza mais, com amigos e familiares. Eu e minha esposa gostamos de jogar também entre nós, de dois somente. Então, ao invés de assistirmos televisão ou ver internet, por exemplo, algumas vezes jogamos algumas partidas. É uma ótima oportunidade de passar tempo junto e aprender a perder e a vencer J

E com os filhos então? Ótima oportunidade de ensinar importantes lições.

Com todas essas vantagens, o que você está fazendo aí que ainda não escolheu seu jogo?

Como escolher os jogos? Além das dicas acima, o negócio é pesquisar e ler muito sobre os jogos e tipos de mecânicas. Os boardgames constituem um hobbie que está em crescimento no Brasil, com muitas publicações de jogos europeus e americanos por editoras brasileiras, tais como Devir, Galápagos, Redbox, Conclave

Existem sites especializados em boardgames como o brasileiro ludopedia e o boardgamegeek.com

Viva a amizade e boa jogatina!gamesdays

What do you think?

0 points
Upvote Downvote

Total votes: 0

Upvotes: 0

Upvotes percentage: 0.000000%

Downvotes: 0

Downvotes percentage: 0.000000%

Written by Adriano Borges

Historiador, professor na UTFPR, casado com a mosaicista Mabel e pai de dois filhos.

Comments

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Loading…

Uma breve reflexão aleatória sobre os dilemas de leitura na vida de um ser.

Relato de um cara que conheceu o outro lado