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Mitologia, perigos e promessas dos super-heróis.

Mitos tiveram uma importante função nas culturas antigas. As histórias são geralmente excitantes e divertidas, tratando de heróis extraordinários com poderes especiais que superam grandes obstáculos para salvar seu povo. Assim como os mitos entretém as pessoas, eles também as ajudam a entenderem suas vidas e o mundo em torno delas. As histórias refletem ou desafiam os valores da cultura, modelando virtudes particulares e sugerindo maneiras pelas quais as pessoas poderiam viver vidas significativas e virtuosas.

As histórias de heróis atuais podem ser vistas como um tipo de mitologia moderna. Desde a década de 1930, quando começaram a surgir a cultura dos quadrinhos de super-heróis, os leitores puderam entrar na pele dos heróis e sentir suas lutas pela coisa certa a fazer e perseverar em meio as adversidades. Em muitos casos, estas histórias ajudaram as pessoas a refletir sobre si mesmas. Essas histórias são válidas porque elas exploraram valores e crenças não somente de forma abstrata, mas postas em prática.

Como muitos dos mitos antigos, estas histórias de super-heróis carregam com elas alguns valores e virtudes que as pessoas de fé podem afirmar, e outras que as pessoas de fé devem questionar. Através da reflexão dos valores inerentes no gênero de histórias de super-heróis, nós podemos usar estas narrativas como uma oportunidade para refletir sobre nossos valores e como nós escolhemos viver nossas vidas.

Mas existem alguns problemas com super-heróis.

Super-heróis são muito divertidos. Suas histórias apelam para o nosso senso de admiração, prazer e fantasia, e nossas noções de certo e errado.

Mas temos em primeiro lugar o problema da violência nestas histórias (este é um tema que já mencionei em minha primeira postagem aqui no blog, e pretendo ainda falar mais em outra oportunidade).

De fato, apesar de os quadrinhos terem muitas histórias de amor, perdão e sacrifício heroico, na maioria das histórias os heróis resolvem seus conflitos através da derrota dos vilões. A fascinação com histórias de violência não é única nas histórias de super-heróis. A humanidade tem usado histórias violentas por milhares de anos para tentar explorar os conflitos internos de maneiras concretas. Por exemplo, um dos primeiros mitos da humanidade, o antigo mito Babilônico de criação conhecido como “Enuma Elish” é extremamente violento. Ele conta a história de uma batalha violenta entre os deuses. De acordo com o mito, a humanidade na verdade nasceu do sangue de Kingu, um dos deuses mortos.

 

O perigo nestas histórias não é simplesmente que eles influenciam a violência, mas que eles levarão, de uma maneira sutil e inconsciente, a um ponto de vista que divide o mundo e sugere que o único modo de resolver conflitos é destruindo nossos inimigos.

Mas o mais importante e preocupante nestas histórias é a tendência de ver o bem e o mal como forças iguais e concorrentes lutando pelo poder do universo pode ser atraente. Isto até soa como uma abordagem espiritual do mundo; e é! Dentro da teologia essa abordagem é chamada de maniqueísmo.

Ela é baseada em um sistema popular de crenças ensinado pelo profeta Mani, no terceiro século d. C. Naquela época, Agostinho de Hipona e a maioria das tradições cristã ao longo dos anos consideraram esta visão do mundo como herética. Para estes, o bem e o mal não são forças iguais em luta pelo controle do universo, mas Deus está no controle final do universo. Colocado de outra forma, a força do mal não é equivalente ao único Deus bom.

Críticos do maniqueísmo argumentam que esta posição tem implicações filosóficas e éticas problemáticas. Eles argumentam que aqueles que acreditam que há uma luta universal entre o bem e o mal são tentados a ver eles mesmos como lutando ao lado do bem, ou do lado de Deus, e logo veem seus inimigos como seres maléficos que são partes de uma força universal do mal. Consequentemente eles começam a ver eles mesmos como totalmente bons e começam a demonizar seus inimigos. Como resultado, dizem os críticos, aqueles que tomam posição maniqueísta são tentados a justificar toda a sorte de métodos para derrotar aqueles a quem eles veem como maus.

Muitas obras de ficção são acusadas de serem maniqueístas na medida em que elas apresentam um lado, os heróis, como sendo totalmente bons e outro lado, os vilões, como totalmente maus. O conflito nestas histórias é resolvido quando simplesmente o herói fica irritado o suficiente ou determinado o suficiente para se levantar contra o mal e destruir seus inimigos.

A maioria dos teólogos cristãos entende que a fé cristã chama por uma perspectiva muito diferente do maniqueísmo ao confrontar o mal. Os cristãos sabem que todos pecaram e que nenhum humano é totalmente bom. Da mesma fora, eles sabem que todos podem ser redimidos, e que ninguém é totalmente mal. Se as pessoas não enxergarem seus inimigos como totalmente maus, ou fazendo parte de forças cósmicas do mal, eles estarão menos tentados a demonizá-los e destruí-los em nome de Deus. Ao invés, os cristãos são compelidos a praticar virtudes como misericórdia, sacrifício e perdão.

Os pensadores cristãos se referem a mandamentos do Novo Testamento tais como “amem aos seus inimigos” (Mt 5.44), “não retribuir a ninguém mal por mal” (Rm 12.17), e para “vencer o mal com o bem” (Rm12.21b). Os cristãos também são mais inclinados a deixar os resultados finais de um conflito nas mãos de Deus.

John Shelton Lawrence e Robert Jewett traçam o papel das histórias de heróis nos Estados Unidos em seu livro “The Myth of the American Superhero”, que analisa filmes e literatura em geral. Sua conclusão é perspicaz. Eles analisam o que eles se referem como o “monomito Americano”. A história básica segue o seguinte enredo: uma comunidade em um paraíso harmonioso é ameaçada pelo mal; as instituições normais falham em vencer este mal; um herói altruísta emerge para renunciar à tentações e levar adiante a tarefa redentora; auxiliado pelo destino, sua vitória decisiva restaura a comunidade à sua condição paradisíaca; o super-herói retorna para sua obscuridade. Os heróis chegam até mesmo a renunciar aos relacionamentos. Eles não são capazes de ter amigos próximos ou um cônjuge ou até mesmo a ser parte da comunidade. Ao invés, no fim da história, eles cavalgam para o por do sol.

O problema que transparece neste tipo de mito é que as instituições da sociedade são incapazes de resolver um problema, e que a sociedade não funcionada. Para resolver o problema, um indivíduo vem de fora, salva o dia, e então vai embora. Esse monomito americano celebra o estrangeiro que salva o dia, mas é um mito raso. Ele não nos chama para tomar ação e trabalhar juntos para reformar as instituições da sociedade e criar soluções de longo prazo para nossos problemas.

E também, nossa fé ensina que nós não devemos tentar solucionar nossos problemas através da violência. Nós acreditamos que não devemos pagar o mal com mal. Nós também acreditamos que não devemos esperar por algum herói estrangeiro para vir e nos salvar (nosso “herói” já veio), mas devemos trabalhar juntos como uma comunidade para procurar resolver os problemas da sociedade e tentar mudá-la para melhor.

Apesar desses problemas, as histórias em quadrinhos possuem lições positivas. Os problemas de relacionamentos, questões morais, podem trazer reflexões interessantes. Ainda assim, devemos cuidar, porque as pessoas podem estar sendo atraídas para esse tipo de história exatamente pelos pontos negativos e é preciso deixar claro desde o início quais são os temas subjacentes nessas histórias.

“Venham, vamos refletir juntos”! (Isaías 1:18)

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Written by Adriano Borges

Historiador, professor na UTFPR, casado com a mosaicista Mabel e pai de dois filhos.

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