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No meu tempo…

Não é estranho como nos tornamos saudosistas?

Primeiro a gente estranha nossos pais e pessoas mais velhas falando sobre como eram boas as coisas do tempo deles. Minha mãe por exemplo, sempre fala sobre o sabor dos chicletes e dos doces de quando ela criança, que eram muito saborosos e que o aroma era inesquecível. Meu pai sempre fala dos filmes, da expectativa que tinha para ver um lançamento e de como se reunia com seus amigos para ir ao cinema. Quase sempre ele encerra o assunto com o clássico jargão “aquilo sim que era filme!”

Quem nunca ouviu isso…

Depois vem a comparação. Os filmes e músicas que a minha geração assistiu e ouviu são em boa parte versões de coisas antigas. Como cresci vendo filmes junto com meu pai, logicamente que tudo o que acho legal e que acredito que ele vai gostar eu quero mostrar para ele. No entanto, é muito difícil eu convencê-lo a assistir uma versão de algo que ele viu e gostou na sua juventude. Em alguns momentos meu poder de persuasão foi bem sucedido e eu consegui com que ele visse uma nova versão de alguma coisa. Mas pensa na cara de desprezo que ele fez quando mencionei a nova versão de Django! Eu achei o filme excelente e gostaria que ele assistisse. Mostrei o trailer para ele e ouvi um longo discurso sobre como o Tarantino tinha conseguido estragar algo que já era bom demais!

Isso sim que é Django de verdade meu filho!

A última fase é a que estou vivendo. Agora sou quem torce o nariz para novas versões. Tenho a sensação de que todos estão sendo enganados com cópias baratas de filmes que um dia deram certo e que estão muito bem onde estão, que não precisam ser tocados ou “melhorados”. A nova versão de Caça-Fantasmas, por exemplo, faz eu sentir uma vergonha indescritível e a simples menção de uma nova versão de Sete Homens e Um Destino soa quase como blasfêmia. Fazer uma versão de um filme que originalmente teve Yul Brynner, Steve McQueen, James Coburn e Charles Bronson juntos é quase um sacrilégio. Sobre o remake do Ben-Hur em nem vou me esforçar pra tentar fazer algum comentário.

Mas eu sei que muita gente vai ler isso e vai pensar “quem? Charles o que? Yul é um nome mesmo? Não conheço nenhum, nunca nem ouvi falar!

A gente abaixa a arma se você desistir de ver esse remake xexelento!!

Sim, é aí que mora o dilema. Esse é o meu sentimento, é o meu contexto, minha opinião. É a minha memória afetiva. Nós desenvolvemos nossa memória afetiva durante a nossa vida, desde as simples festinhas de aniversário da nossa infância, passando por almoços de família, o sabor daquele bolinho que só sua avó sabia fazer, aquela carne que, mesmo que você já tenha comido nos restaurantes mais renomados do mundo, não chega nem aos pés daquela que sua mãe faz e até os inesquecíveis filmes da saudosa Sessão da Tarde! (saudosa, a que existe hoje não vale mais)

Com o passar do tempo, especialmente na infância, nós desenvolvemos preferências, e muitas dessas preferências são baseadas em memória afetiva. Quanto mais entendemos do que gostamos, mais buscamos coisas que se encaixam e que complementam esses gostos, e quando fazemos isso, entendemos muito mais quem somos, como pensamos e agimos.

Mas e quando nos deparamos com reboots e remakes, como no caso do meu pai com o Django Livre? Sim, agora eu entendo bem o sentimento dele. Nós temos a tendência de olhar com desconfiança. Acredito que o medo de se frustrar com a nova experiência é maior do que o desejo de se arriscar com algo reelaborado. É como se houvesse o risco iminente de estragar o sentimento já existente. “Se é para mexer nisso, que seja autêntico e nostálgico ao mesmo tempo”, é o que eu penso. Eu espero por elementos que podem agregar, mas quero que o sentimento seja o mesmo que eu já tinha. E creio que eu não seja a única pessoa a pensar desse jeito.

Acredito que existe uma forma inteligente de se trabalhar coisas antigas, sem bagunçar o que já foi feito no passado. Um exemplo muito claro e inteligente disso é o que está acontecendo ao redor do mundo com o Pokémon Go. Pokémon existe desde 1989 e apareceu no Brasil em 1997. O sucesso foi imediato. Quem era criança na época criou um vínculo com isso, e para essas pessoas, agora, quase 20 anos depois, não é só um jogo que foi lançado. É mais uma parte de uma memória que envolve um sentimento enorme. Mesmo quem não é ligado em jogos mas que foi um fã do desenho na época, provavelmente procurou pelo menos saber do que se trata.

Eu não tenho sentimento nenhum por Pokémon, e não porque tenho algo contra, mas porque eu não curtia esse tipo de desenho animado, então não acompanhei, e não sei praticamente nada sobre esse universo. No entanto, eu entendo o quanto a divulgação do jogo está sendo bem feita e o quanto o fã está se sentindo respeitado.

Há poucos dias também o Netflix lançou uma série que, como bem descreveram os seus criadores, é uma grande carta de amor aos fãs de filmes dos anos 80. Estou falando de Stranger Things. Stranger Things é uma série em 8 capítulos que conta a história de um menino que desaparece de forma misteriosa. A partir disso, a história se divide em três partes: o elenco mirim, o elenco adolescente e o elenco adulto.

Star Wars, O Enigma de Outro Mundo, Indiana Jones, Caverna do Dragão… tá tudo aí nesse cartaz!

O elenco mirim fez eu sentir que a todo tempo eu estava vendo Conta Comigo e Goonies. Os adolescentes, com todos os dilemas adolescentes muito bem desenvolvidos, nos remetem aos melhores filmes do gênero dos anos 80, como Garotos Perdidos e Clube dos Cinco. Os adultos fecham a trama com os elementos que todos nós conhecemos desses filmes: marido banana e esposa controladora, crises, perdas, sentimento de culpa, desespero, paranóias e cigarro, muito cigarro!

As referências são jogadas uma atrás da outra e quem viveu na época certamente vai se emocionar quando encontrar, além dos filmes que já citei,  partes que remetem a E.T., Alien, O Iluminado, Poltergeist, Twin Peaks, Tubarão e até a história em quadrinhos Watchmen. É uma enxurrada de clichês deliciosos! Além de tudo isso, a trilha sonora maravilhosa faz o espectador encher os olhos de lágrimas com as músicas transbordando de sons sintetizados.

Eu já estava pensando sobre tudo isso há um tempo, e foi vendo Stranger Things que tive a confirmação de que quando algo é feito para homenagear e afirmar o que já existe é muito melhor do que a tentativa de refazer. É claro que existem remakes que são fantásticos e que funcionam muito bem, mas acredito que são as exceções.

Stranger Things me animou quanto ao futuro dos filmes e séries, mesmo em meio a uma enxurrada de remakes e reboots farofentos que vem por aí. Os irmãos Duffer mostraram o quanto a década de 80 foi importante para nós, para nossa infância e nossas vidas. Espero por outros que possam fazer isso para o cinema dos anos 90, 2000 e além.

E que possam deixar Senhor dos Anéis do jeito que está. Para sempre. Amém 😉

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Written by Chico Milk

Chico Milk nasceu em Guarapuava City Paradise. Um dos quatro seres viventes. Guitarrista low profile, amante de dias frios, chuvosos e cinzentos, bebedor nato de café com leite, leitor de livros e quadrinhos.

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