Você lembra da música da propaganda do Big Mac? Dois hambúrgueres, alface, queijo, molho especial, cebola e picles num pão com gergelim! A música era contagiante, tinha diferentes versões e fazia parte do nosso dia a dia. Eu achava demais! Cantar sem errar nenhum ingrediente lhe conferia algum status de ninja ou algo do tipo nas rodas de amigos.

Como eu morava no interior do Paraná, tinha de me contentar em cantar a música, porque o lanche mesmo só era disponível na capital. A primeira vez que tive a oportunidade de comer um lanche do McDonald`s foi uma experiência inesquecível.

Eu tinha 13 ou 14 anos na ocasião e estava passeando na casa de uma tia que morava perto de Curitiba. Uma prima tinha de ir ao dentista – que era em Curitiba – e me convidou para ir com ela. A proposta era ir para a consulta e depois passear. O coração ficou a milhão! No dia seguinte, depois da consulta, começamos a caminhar pelas ruas e eu estava maravilhado. Deve ter sido a cena no melhor estilo “caipira na cidade grande”.

Depois de explorar todas as maravilhas de um Shopping Center (coisa que também não tinha na minha cidade, e ainda não tem até hoje…), minha prima vira para mim e faz a pergunta mágica: vamos ao Mac? Maaaaano!… a vista escureceu, a cabeça murchou, os cotovelos começaram a formigar, luzes, unicórnios… Acho que alegria foi tão grande que só o sorriso respondeu a pergunta.

Era a grande chance de subir um degrau na vida, de finalmente passar do status de mero conhecedor da musiquinha para alguém que literalmente conseguiu comer um lanche do Mac (interior level master!!!). Depois de receber todas as instruções de como pedir o lanche sem passar vergonha (muito importante), fui até o balcão. Era importante ter convicção, não podia haver a possibilidade de pedir ajuda (detalhe muito importante para o ser masculino) e a voz tinha de soar firme. Afinal, eu era do interior e isso não podia me atrapalhar.

O resultado foi um sucesso, impecável. Um pedidor de lanches nato! (a palavra pedidor foi só para ilustrar, ok Pasquale?) Após levitar até onde minha prima estava sentada, coloquei o lanche na mesa e respirei. Depois de comer a batatinha, chegou a vez do lanche (ooooooohhh!!). Apesar de o Big Mac ser o sucesso, meu pedido foi um Quarterão. Quando ouvi esse nome pela primeira vez, imaginei que era um sanduíche gigante (além de ser do interior, é esganifado…).

Minha atividade cerebral me mostrava algo deste naipe momentos antes de abrir a caixinha.
Minha atividade cerebral me mostrava algo deste naipe momentos antes de abrir a caixinha.

Eu lembro nitidamente da sensação de frustração no momento em que abri a caixinha. Lembro da irritação instantânea, da fúria e do discurso indignado que fiz para minha prima. Era muito pequeno e o sabor era esquisito. Malditos picles… Lembro de voltar para a casa dela totalmente desolado, com o sentimento de ter sido traído pela propaganda, pelo senhor Mac, pelo palhaço, pela humanidade! Fiquei tão tenso que no dia seguinte acordei com torcicolo, completamente travado, e fiquei assim por três longos dias!

 

Apesar de toda essa penúria, essa experiência me ensinou algo precioso sobre expectativa, e que eu vou chamar aqui de Fator Big Mac. Nossa vida é recheada de situações e coisas que geram expectativa em nós. Seja um presente de aniversário, um filme, um seriado, um reencontro com um velho amigo, um encontro com alguém especial, o novo álbum da nossa banda favorita ou o lançamento de um jogo, tudo isso e muito mais faz parte de uma espera. E como nós encaramos isso?

O legal de esperar algo está na surpresa, na possibilidade de ser surpreendido. Não acho errado criar expectativas, mas acredito que existe uma forma melhor, mais inteligente de encarar essa situação. É esperar o Sim e o Não. É esperar que algo pode ser bom como também pode não ser. Que pode dar certo ou errado.

Amizade é um bom exemplo. Talvez você era o tipo de pessoa que conhecia muita gente na época da escola, tinha bons amigos e viveu muita coisa interessante. Depois de 10, 15, 20 anos você tem a oportunidade de reencontrar alguns desses amigos. Qual é seu pensamento sobre isso? Que vai ser tudo sensacional? É sensato pensar que as pessoas mudam e que um reencontro pode ser muito legal como também pode ser uma experiência no mínimo estranha.

E amigo secreto? Conheço muita gente que não participa de amigo secreto. Trauma? É bem provável. Eu mesmo já passei pela experiência de dar uma camiseta de uma marca excelente e ganhar uma caneta! Ainda se fosse uma Bic, mas era uma caneta de uma cor bizarra com um cordão fosforescente gigantesco na tampa! Por conta do Fator Big Mac, hoje eu continuo participando, mas mudei meu foco do “receber um presente legal” para “vou dar um presente legal e curtir o momento”. É uma forma de pensar que me ajudou a me frustrar menos.

Eu também tomei uma decisão de não assistir mais trailers de filmes. Até poucos anos atrás só saia um trailer de cada filme e era suficiente. Hoje sai muito material em vídeo para promover os filmes e muita coisa já é contada antes. Vi, por exemplo, uma compilação de trailers que somava mais de 40 minutos de um filme de heróis. E ao invés disso diminuir a expectativa, só aumentou porque gerou muita especulação sobre o que tal cena poderia significar. Situações como essa deram origem aos pavorosos Trailers Comentados, que infestam a internet quando um filme interessante vai estrear.

O que era para ser um entretenimento acaba se tornando em um tipo de obsessão, e a expectativa inicial se torna em ansiedade e até aflição. Exagero? Nem um pouco. Chega a ser constrangedor como algumas pessoas reagem a opiniões. Um bom exemplo é o filme do Batman Vs Superman. O filme apresentou uma história pouco coesa, quase sem profundidade e personagens rasos, muito distantes dos apresentados nos quadrinhos. Quem deu uma opinião negativa sobre o filme foi massacrado e xingado abertamente.

F4
Alguém tentou te convencer que isso seria bom e até hoje você não sabe o que pensar.

A impressão que tenho é que a expectativa é tão alimentada e a pessoa é tão bombardeada de informações, tão envolvida na situação, que no final ela desenvolve um sentimento que seria algo como “eu preciso gostar disso”. É tanto tempo e emoção investido que precisa ser algo positivo. Frustração não é uma alternativa! E depois a sensação que tenho é que mesmo não gostando, as pessoas defendem e tentam achar um lado positivo. É mais fácil aceitar.

Esse é um dos comportamentos que, acredito eu, ajudou a criar uma geração que tem dificuldade de ouvir ideias contrárias, que evita opiniões que destoam da opinião da maioria e que tem a maior convicção de que esse é o único modo certo de pensar.

Mesmo em meio a tudo isso, eu acredito que é possível sermos saudáveis nas nossas expectativas, nos nossos sentimentos. A solução pode estar em aprender algo diferente, em dar uma chance para pensar diferente ou até mesmo na realização de algum sonho bobo, como comer um lanche de propaganda 😉

What do you think?

0 points
Upvote Downvote

Total votes: 0

Upvotes: 0

Upvotes percentage: 0.000000%

Downvotes: 0

Downvotes percentage: 0.000000%

Written by Chico Milk

Chico Milk nasceu em Guarapuava City Paradise. Um dos quatro seres viventes. Guitarrista low profile, amante de dias frios, chuvosos e cinzentos, bebedor nato de café com leite, leitor de livros e quadrinhos.

Comments

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Loading…

O Dia Mundial Nacional do Rock!

Briga Imaginária