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Pais – uma tarefa filosófica e prática

b_Faxina (11)

4 gerações de Borges 🙂

Por coincidência, na semana em que vem chegando o dia dos pais, li mais um livro sobre paternidade e no encontro dos homens semanais de minha igreja o assunto foi como cuidado dos filhos. Então, pensei bastante sobre o assunto esta semana.

Refletindo sobre o assunto vejo como a paternidade mudou não só meu modo de vida, mas também a maneira como eu encaro a vida. Ser pai me fez uma pessoa melhor.

“O papel mais importante que um homem pode exercer em sua vida é a de pai. A paternidade constitui um elo  que o homem estabelece com o futuro. Sua descendência leva consigo seu nome e herda seu legado social, emocional e financeiro. Mesmo que um filho se rebele contra a mensagem filosófica que seu pai lhe transmite sobre a maneira de conduzir a vida, ele é enormemente influenciado por seu pai.” (Lewis Yablonsky. Pais e filhos, p.13).

De fato, a paternidade te ensina um monte de lições. Te faz menos egoísta, porque você tem menos controle sobre, por exemplo, suas horas de sono. Você tem que fazer parte do processo e compartilhar as tarefas do lar e do cuidado da criança com sua esposa. O filho tem um forte impacto na vida do pai; este aprende enormemente a partir de seu filho.

A paternidade faz você olhar a vida com outros olhos. Algumas vezes você se torna mais chato, mas também, na maioria das vezes, você descobre os deslumbramento das pequenas coisas.

Brincar de Hot-wheels se torna uma grande corrida; explorar o jardim, ou a vizinhança é uma aventura; as viagens de carro nunca mais serão as mesmas: músicas, histórias, piadas e muito companheirismo.

Falando em companheirismo, acho que esse é o grande ponto da paternidade. Além do companheirismo que você já tinha com suas esposa, você ganha mais um(a) parceiro(a) na figura do filho(s). Principalmente a partir de uma certa idade.

Acho que na história a figura do pai sempre foi relevada, deixada em segundo plano. Nunca nos demos conta da importância dos pais, até que recentemente as ciências cognitivas e psicológicas começaram a nos falar sobre o impacto positivo e negativo da presença ou ausência paterna.

Ser pai é uma dádiva, no sentido de que você começa a ver a vida com outros óculos, mas é também uma grande responsabilidade. Ensinar a criança “no caminho que deve andar” é algo que nós homens não devemos negligenciar, mas que muitas vezes somos faltosos.

Deixamos a responsabilidade de orar e ler a bíblia com nossos filhos para a mãe, e perdemos oportunidades incríveis de comunhão.

Nossos filhos estão à todo momento olhando para seus pais em busca de sentido para a vida. Se nossas respostas, verbais ou práticas, forem equivocadas, estaremos passando a mensagem errada. Por isso é que é uma grande responsabilidade: é uma tarefa de 24 horas!

Pra mim ultimamente algo tem acontecido que exemplifica bem esse olhar filial em busca de comprovação. Meu filho, agora de 6 anos, observa minhas reações em diversas situações. Outro dia, cheguei do trabalho e ele me perguntou como foi. Aquele dia tinha sido meio chato e eu respondi que assim o foi. Outro dia ele me perguntou novamente, e eu entendi que se eu só falasse coisas ruins do meu trabalho ele iria começar a construir uma visão negativa do meu trabalho. Veja, não que meu trabalho seja ruim, muito pelo contrário, mas temos algumas vezes a tendência a ver somente os lados maus das coisas. Então, em resposta ao meu filho, enfatizei as coisas positivas. Viu como a paternidade nos ajuda a enxergar a vida com outros óculos?

Imagino que seja normal, mas me esforço pra dar o de melhor para os meus filhos. E logicamente estou falando para além de coisas materiais. Por exemplo, na questão do tempo, na escolha de atividades e por aí vai. Claro que sou um ser falho, mas procuro melhorar sempre.

Falei linhas acima que a paternidade foi relevada na história. Mas nunca demos tanta importância e ao mesmo tempo tratamos com desleixo a paternidade quanto nos últimos tempos. Os pais sempre foram fundamentais, junto com as mães, na formação do caráter de uma criança. Só que somente de uns 50 anos pra cá, mais ou menos, é que começou a ocorrer o fenômeno de mães solteiras. (Não que não existissem antes, mas isso tem se tornado mais comum). Até a Revolução Industrial, os pais fundamentalmente trabalhavam em casa e dividiam a tarefa de educar os filhos com a mãe. Mas após essa revolução, os pais começaram a sair de casa e ir trabalhar longe. O pai passou a ser aquele que chegava tarde e mal via os filhos no dia a dia.

Entretanto, muitos estudos nos últimos anos começaram a enfatizar a importância da presença do pai. E também, devido a mudanças no mercado de trabalho, uma grande parcela trabalha menos do que um trabalhador do século XIX e inicio do século XX. Assim, sobra mais tempo para curtir em família e para ajudar na educação dos filhos.

Em um certo momento depois que nos tornamos pais, passa um filme na nossa mente, e vemos como nosso pai foi importante para formar nosso caráter. Imagino que possa ter alguém que teve um pai ausente, autoritário ou violento e mesmo assim, isso nos serviu de alguma coisa e nos aponta para a responsabilidade de evitarmos os erros do passado e sermos melhores pais.

Eu tive a sorte de ter um pai presente. E um pai parceiro. Me levava pra assistir e jogar futebol e até jogava videogame comigo.

Pego o que de melhor tive e tento aperfeiçoar na educação dos meus filhos.

Tenho um menino e uma menina e percebo, tanto por leituras quanto pela prática, como ser um pai presente para eles é importante de uma forma diferente para cada um. Para meu filho, estou desde pequeno ensinando o que ele precisa para ser um homem; e faço isto muito mais através de ações do que de palavras, mesmo sem intenção muitas vezes. Para minha filha, estou mostrando como ela é bela e como um homem deve tratar uma mulher (estou tentando elevar o padrão pra algum futuro pretende, hehe).

Mas acho que o ponto principal é que estamos conscientes ou não, passando uma visão de mundo a todo momento para nossos filhos.

“Em seu papel de pai, o homem passa para seu filho uma mensagem filosófica fundamental (…), enquanto viverem, se o filho der ouvidos, prestar atenção, ouvirá algum canto  temático básico vindo de seu pai que, nos escolhos da existência, lhe ensinará como deve portar-se na vida. Pai e filho interagem de modo significativo entre si sobre estas mensagens filosóficas básicas, que podem ser clara ou abstratamente transmitidas. Os filhos leem essas mensagens, que depois influenciam suas vidas de maneira feliz e concretizante ou então desalentadora.” (Lewis Yablonsky. Pais e filhos. p. 30).

Por isso é importante como a mensagem do pai é passada.  O êxito da mensagem paterna está relacionada diretamente à crença do filho de que seu pai alcançou um nível real de felicidade. Se o pai quer transmitir certa mensagem, mas é desanimado ou infeliz com a vida, com o trabalho, o filho certamente buscará uma vida oposta à do seu pai. Daí a importância de minha resposta quando meu filho me perguntou sobre meu dia de trabalho. Todos temos problemas no dia a dia, mas procurar viver o que pregamos é um grande desafio e se queremos filhos melhores devemos refletir criticamente sobre nossa visão de mundo pra aperfeiçoá-la e passá-la para nossos filhos.

E pra passar essa mensagem a comunicação é a ferramenta básica. O que mais falta em um relacionamento pai e filho é a habilidade de se comunicarem, de elaborarem perspectivas e de colocarem em ordem seus conflitos e as frustrações que podem surgir entre eles. A comunicação verbal conjugada à corporal tem uma maior possibilidade de obter bons resultados. A criança precisa saber que seu pai lhe ama, e precisa tanto ouvir quanto sentir fisicamente este amor.

Um bom desempenho paternal não depende de homens perfeitos; esses não existem. Formaremos bons filhos de maneira integral, quando nos colocarmos diante de Deus continuamente em oração, quando nos esforçarmos para aprender de outras pessoas que vieram antes de nós e quando percebermos que a nossa mensagem deve ser transmitida através de exemplos práticos e de palavras sábias. Tal objetivo, um dos mais importantes na vida de um homem, será completada quando considerarmos nossos filhos prontos para a vida adulta. Quando forem homens íntegros perante Deus e os homens. Deus nos encha de sabedoria!

 

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Written by Adriano Borges

Historiador, professor na UTFPR, casado com a mosaicista Mabel e pai de dois filhos.

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