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Psicoterapia não é coisa para gente louca

Abstract vector watercolor drawing of a child head showing logical and creative thinking.

“Nós temos um problema, coração, o que você acha que a gente deveria fazer?”

“Vamos RECLAMAR até que ele DESAPAREÇA MAGICAMENTE!!!

(fonte: http://theawkwardyeti.com/chapter/heart-and-brain-2/)

 

A tirinha acima é um exemplo bem-humorado de uma estratégia de enfrentamento de conflito que a maioria das pessoas já tentou adotar em algum momento. Nós precisamos dessas estratégias, e as empregamos amplamente, porque a vida é frequentemente caótica, confusa e assustadora. Nós enfrentamos situações difíceis e temos sentimos conflituosos na nossa relação com o mundo e com as pessoas ao nosso redor. Às vezes, os desafios são óbvios: um relacionamento nocivo, uma perda significativa, uma mudança inesperada. Outras vezes, não existe um fator facilmente identificável, mas um sentimento difuso de inadequação, ou descontentamento. Em outras situações, nós apenas desejamos entender melhor porque agimos como agimos e sentimos o que sentimos. Em todos esses exemplos, nós podemos nos beneficiar de uma psicoterapia.

Ah, mas psicólogo é médico de louco! 

Vamos começar diferenciando dois campos que cuidam de saúde mental, mas de forma distinta: psicoterapia e psiquiatria. Psicoterapia pode ser pensada como a “cura pela fala”, e refere-se a uma classe ampla de intervenções psicológicas, sendo prática exclusiva do psicólogo. Por outro lado, psiquiatria é um campo da medicina, e é exclusiva de médicos psiquiatras. A diferença mais importante entre as duas é que apenas psiquiatras podem receitar medicamentos. Na prática do médico psiquiatra, realiza-se um diagnóstico, de acordo com os manuais de transtorno mentais existentes, e o paciente recebe uma prescrição medicamentosa, como um antidepressivo ou ansiolítico. Enquanto que os psicólogos realizam um tratamento de outra natureza, e ajudam a pessoa a compreender, superar ou lidar com a causa do seu sofrimento através da conversa e da relação com o psicoterapeuta. O terapeuta utiliza técnicas e intervenções específicas para cada caso, e nós vamos falar um pouco sobre as diferentes formas de intervenção mais adiante.

Um preconceito comum que as pessoas têm é de achar que psicólogo e psiquiatra são para “pessoas loucas”. E muita gente resiste a psicoterapia pelo medo ou vergonha de ser julgado como fraco, errado, ou “louco”. Mas o que é loucura? E se “loucura” é estar fora do padrão, o que é “normalidade”? É importante pontuar que algumas doenças mentais tem fundo orgânico. Por exemplo, problemas de desenvolvimento, como o autismo, ou doenças que podem ter fundo genético, como  esquizofrenia e transtorno bipolar, ou mesmo alguns tipos de depressão. Contudo, profissionais da área concordam que a definição do que é saúde mental e o que constituiu ou não doença mental é construída em parte socialmente. Isso fica evidente na forma como os manuais de diagnóstico de transtornos mentais mudam com o tempo para refletir mudanças na sociedade. Por exemplo, até a década de 1990, homossexualidade era percebida como algo que devia ser corrigido, e os manuais diagnósticos a categorizavam como uma doença mental. Contudo, com a mudança de percepção da sociedade sobre o tema, homossexualidade deixou de ser tratada como algo que devia ser corrigido, e os manuais diagnósticos retiraram da sua lista de doenças. Dessa forma, o que é ou não “normal” muda em consequência dos progressos no nosso conhecimento sobre o cérebro e sobre o comportamento humano, e com mudanças nos nossos valores como sociedade. Assim, psicólogos não são para “pessoas loucas”. Eles são profissionais treinados e qualificados para lidar com a saúde mental das pessoas em várias situações diferentes, independente de haver ou não um transtorno mental envolvido.

Então, para que serve psicoterapia? 

Psicoterapia é um processo no qual um psicólogo utiliza uma abordagem teórica especifica para ajudar a pessoa a entender e mudar aspectos da sua vida que estejam causando alguma forma de sofrimento psíquico. O objetivo da psicoterapia é promover o bem-estar psicológico da pessoa. Vale ressaltar que o que constitui sofrimento psíquico não é definido pelo psicólogo, mas pela pessoa que busca terapia. Faz parte do papel do psicólogo ajudar a pessoa a identificar quais as causas do seu sofrimento e o que pode ser feito para aliviar tal sofrimento. Contudo, o psicólogo não pode, em hipótese alguma, impor sua visão de mundo ou suas opiniões e forçar que a pessoa as aceite como verdadeiras (por exemplo, tentar mudar a orientação sexual ou religião de seu paciente).

Em geral, no processo de psicoterapia, as primeiras sessões são dedicadas ao delineamento de caso. A partir daí, psicólogo e paciente firmam um contrato, verbal ou escrito, sobre os objetivos do processo terapêutico, e aspectos práticos, como freqüência dos atendimentos e honorários. A duração do processo pode ser desde algumas sessões, até anos de terapia. Isso tudo depende do do que leva a pessoa a buscar tratamento e da abordagem teórica do psicoterapeuta. Esses aspectos devem ficar claros já no início do processo. Depois do delineamento de caso, o psicoterapeuta utiliza técnicas específicas, de acordo com sua abordagem teórica, para realizar a análise e intervir no caso. Essas duas partes não são facilmente diferenciadas, já que, muitas vezes, a intervenção é a própria análise. Ou seja, conforme a pessoa fala das suas dificuldades, com a ajuda do terapeuta, passa a entender melhor a origens e o contexto no qual certas situações ocorrem, o que leva a uma mudança na forma como a pessoa se vê, vê o mundo e interage com ele. Outras vezes, a intervenção envolve passos específicos, dentro e fora da sessão, que são aplicados pelo terapeuta e seguidos pelo paciente. O terapeuta pode, por exemplo, pedir uma lição de casa, que envolve o paciente realizar determinada tarefa fora da sessão, ou propor uma atividade dentro da sessão. Essas técnicas e procedimentos são adotadas de acordo com o referencial teórico do terapeuta e com a demanda do caso, o que torna o processo psicoterapêutico único para cada pessoa.

Nem toda psicoterapia é criada igual

Outra concepção errônea é que psicoterapia é sinônimo de psicanálise. Apesar da psicanálise ser pioneira no campo, ela não é a única forma de psicoterapia. Freud, o pai da psicanálise, é também considerado um dos pais da psicologia, e sua contribuição para essa área de conhecimento é inegável. Porém, não se assuste se você conversar com um psicólogo que diz não gostar de Freud. Isso acontece porque a psicologia em si é um balaio de gato. Ela é uma ciência relativamente jovem, e surgiu derivada da filosofia e da medicina. E, por não ter surgido de uma vez só, nem oriunda de uma corrente filosófica só, ela é composta de um número considerável de teorias. Cada uma delas vê o homem de uma forma diferente, e explica a psique, ou o comportamento, ou a mente do seu próprio jeito. Se por um lado, a pluralidade da psicologia é boa e favorece formas diversas de ver o homem e os problemas humanos, ela pode ser confusa para quem não é psicólogo. Mas, não se preocupe! Não existe uma terapia melhor ou pior do que a outra e, na maioria dos casos, qualquer psicólogo qualificado é capaz de tratar qualquer pessoa. No fundo, fatores subjetivos, como a relação terapeuta-paciente, são tão ou até mais importante do que a abordagem utilizada pelo terapeuta. Porém, para ajudar nossos leitores a navegarem no mundo das psicoterapias, segue aqui um breve resumo das principais abordagens teóricas em psicoterapia:

Terapias analítico-comportamentais: são psicoterapias que se embasam teoricamente numa corrente da psicologia conhecida como behaviorismo radical, cuja principal referência é o psicólogo americano B.F. Skinner. Nessa abordagem, o foco da mudança clínica é o comportamento, tanto aberto quanto encoberto (pensamentos e sentimentos podem ser entendidos como comportamento nesse caso). O comportamento é produto da relação do organismo com o ambiente, e a mudança clínica ocorre a partir da análise dessas relações. Existem várias correntes de psicoterapias comportamentais, como a Terapia Analítica Funcional, Ativação Comportamental e Terapia de Aceitação e Compromisso.

Psicanálise: refere-se ao campo clínico criado pelo médico austríaco Sigmund Freud. Para a psicanálise, a mente, ou psique humana divide-se em consciente e inconsciente. Como grande parte dos processos psíquicos acontecem no nível inconsciente, a psicanálise adota uma forma de intervenção chamada “associação live”, na qual o terapeuta interpreta a fala do paciente e encontra motivos para explicar a forma como aquela pessoa age. Algumas das correntes de origem psicanalítica são a psicologia analítica, psicologia lacaniana e rechiana.

Psicologia fenomenológico-existencial: esse campo da psicologia clínica baseia-se na filosofia fenomenológica e existencial e foi fortemente influenciada por filósofos como Kierkergaard e Sartre. Esse campo da psicologia entende que cada ser humano experiencia o mundo de forma única e diferente. Ou seja, não existe um sistema explicativo para a existência humana que possa ser generalizado, mas cada indivíduo deve buscar seu significado na sua relação com o mundo. O objetivo da terapia é de ajudar a pessoa a encontrar o significado da sua própria existência e assumir responsabilidade por ela. Algumas abordagens clínicas derivadas dessa psicologia são a terapia Gestalt e a abordagem centrada na pessoa.

Como escolher um terapeuta? Quando decidir fazer terapia?

Algumas pessoas argumentam que todo mundo precisa de terapia. O perigo de tal frase é impor a ideia de que não existe saúde mental sem a ajuda de um profissional. Uma versão melhorada desse argumento é: todas as pessoas beneficiariam-se de terapia em pelo menos um momento das suas vidas. Às vezes, a gente não precisa de terapia mesmo. Talvez porque consigamos superar situações difíceis na vida com as ferramentas psicológicas que temos a mão, como uma rede de apoio de familiares e amigos. Ou talvez, aquele trauma de infância não cause tanto sofrimento assim. E tudo bem, talvez nesse momento a gente não precise de psicoterapia. A psicoterapia é indicada para ajudar a pessoa lidar com situações que geram sofrimento psicológico disruptivos, ou quando a pessoa busca  aumentar seu auto-conhecimento.

E como escolher um psicoterapeuta? Na prática, as pessoas escolhem um terapeuta com base em fatores práticos, como quem o plano de saúde cobre, proximidade de casa ou trabalho e custo, ou por indicação de algum conhecido. Esses são todos fatores válidos para escolher um terapeuta. Contudo, é sempre importante verificar se o profissional está habilitado para atuar. Todo psicólogo tem um registro profissional junto aos Conselhos Regionais de Psicologia, e no site dos conselhos é possível consultar, pelo nome ou número do registro, se um profissional está com sua situação regularizada. Isso é uma garantia para o paciente de que o psicólogo atua de acordo com o Código de Ética e as resoluções estabelecidas pelo Conselho Federal para uma boa prática profissional.

No primeiro encontro com o terapeuta, certifique-se que todas as suas dúvidas sobre o processo terapêutico sejam respondidas. Duração do tratamento, expectativas sobre o que pode ser feito, custo e regularidade das sessões. Aproveite esse primeiro contato para conhecer seu terapeuta e entender, mesmo que de forma superficial, como ele trabalha. A relação terapeuta-paciente é a base para o sucesso do processo terapêutico, portanto, se por qualquer motivo você não se sentir confortável com aquela pessoa, procure outro profissional.

Sobre o processo terapêutico

Ao longo do texto, nós nos referimos a psicoterapia como um processo. Isso porque na psicoterapia o paciente tem um papel muito ativo e a mudança clínica não acontece de forma linear. Até por isso alguns psicólogos não gostam de chamar as pessoas que buscam terapia de “pacientes”, palavra que implica uma posição de passividade. Às vezes, os “pacientes” são chamados de “clientes”. A crítica a esse termo é que ele enfatiza a relação financeira com o terapeuta, mas os adeptos do termo defendem que o psicoterapeuta está a oferecer um serviço e que a pessoa que busca terapia é sim um “consumidor” desse serviço. Ambos os termos apresentam um viés e podem ser criticados, mas ninguém inventou um termo melhor até agora!

A mudança clínica também não é linear. Não é que em cada sessão o paciente saia se sentindo um pouco melhor. É bastante comum que o contrário aconteça: quanto mais a pessoa se aprofunda no processo, mais em contato ela entra com aspectos negativos da sua psique, e isso pode gerar algum nível de estresse e sofrimento. Mas também é bastante comum que, com o passar do tempo, o auto-conhecimento da pessoa aumente e ela chegue ao ponto de alívio do sofrimento, ao mudar a forma como ela se relaciona com aquelas coisas que o causavam. Uma metáfora que psicólogos adoram (e psicólogos adoram metáforas) é da larva que entra no casulo antes de se tornar uma borboleta. Existe um nível de dor envolvido no processo de nos tornarmos algo melhor. E, na psicoterapia, o paciente faz boa parte do trabalho duro, através da sua fala: o terapeuta só pode trabalhar com aquilo que o paciente está disposto a compartilhar. A tarefa do terapeuta, nesse sentido, é de usar seu conhecimento teórico para aplicá-lo a vida de cada paciente, por meio de perguntas e comentários sobre o que é falado, por exemplo.  Por esse caráter dinâmico, psicólogos frequentemente se referem a psicoterapia como um processo terapêutico.

Alguns aspectos comuns de todas as formas de psicoterapia são: o valor da relação terapêutica e o sigilo absoluto sobre os assuntos discutidos em sessão. Quanto ao primeiro, todo psicoterapeuta irá reconhecer que a mudança clínica só é possível a medida que há uma boa relação entre terapeuta e paciente. Através do respeito, confiança e, de certa forma, intimidade entre paciente e psicoterapeuta é que o processo terapêutico pode de fato acontecer. O psicoterapeuta irá, inevitavelmente, saber mais sobre o paciente do que o paciente saberá sobre o ele. Contudo, é justamente por ter tanta informação, e por ser uma pessoa “neutra” é que o terapeuta é capaz de ajudar o paciente a ver seu mundo “com novos olhos”. E, também é por isso que o sigilo profissional é tão importante. Seu terapeuta nunca irá sair por aí compartilhando seu caso com os amigos. A garantia de sigilo absoluto ajuda numa boa relação terapêutica e permite que o paciente sinta-se a vontade para ser sincero com seu terapeuta.

Vamos fazer terapia?

É importante lembrar que sofrimento psicológico pode assumir muitas formas e que ninguém está imune a ele. Nós somos criaturas complexas, pensamos e sentimos com intensidade; e vivemos em um mundo complicado demais para sermos capazes de tirar tudo de letra. Não existe nada de errado em sentir desconforto emocional. Ninguém é louco por se sentir assim, apenas humano. E, por isso mesmo, buscar apoio psicológico deveria ser considerado tão natural quanto ir ao dentista quando se tem dor de dente ou ao médico para tratar uma infecção. Se você, ou alguém próximo a você, estiver passando por um momento difícil, busque, ou aconselhe a pessoa a buscar ajuda profissional. Além dos consultórios particulares, as faculdades de psicologia de todo o Brasil oferecem serviço de clínica-escola, na qual alunos do último ano do curso atendem a população com custo reduzido. Cuidar da nossa saúde mental é importante, e a psicoterapia é uma ferramenta valiosa para nos ajudar a superar dificuldades e ter uma vida mais completa e feliz!

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Written by Juliana Popovitz

Nascida em Curitiba e atualmente morando em Baltimore, EUA. Psicóloga e cientista por paixão, doutoranda por necessidade. Fotógrafa amadora, nerd de carteirinha, gamer, apaixonada por gatos e vinhos. Péssima cozinheira e não sabe ver as horas em relógio analógico.

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