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4 coisas do Brasil que passei a valorizar muito mais, depois de morar fora.

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Vou tentar da melhor forma não escrever este artigo em tom comparativo, mas sim, descritivo. É válido dizer também que de forma nenhuma o objetivo aqui é uma crítica a ninguém ou a nenhum povo específico (quem me conhece sabe o quanto amo o Canadá e outros lugares) mas sim, um pouco de elogio a nós brasileiros.

Já estamos cansados de ler artigos de brasileiros que moram fora, comparando o pais de residência (geralmente de primeiro mundo) com o nosso singelo Brasil, não é mesmo? Hoje moro no Canadá e morei por um período curto na Dinamarca, mas o Brasil é minha terra natal, lugar que respeito e valorizo, e como me deprimo ao ler mais e mais destes artigos que reduzem o Brasil e os brasileiros a quase nada, nos deixando quase que de mãos atadas curtindo uma depressão pela situação atual de nosso atrasado país.

E quanto a tudo aquilo que os brasileiros tem de bom? E quanto as coisas que o mundo poderia muito bem aprender com o nosso país e com o nosso povo? Não é possível que só existam críticas, certo? Então seguem as quatro coisas que aprendi a valorizar muito depois de um tempo morando fora, na certeza de que outras vão surgir pelo caminho.

1. Higiene

Acredite, estou muito longe de ser uma neat freak (maníaca por limpeza), ou de me importar muito com isso, mas crescendo no Brasil aprendi algumas lições de higiene que considero básicas. Lições como: lavar as mãos ao chegar em algum lugar depois de pegar ônibus, escovar os dentes depois do almoço, segurar o lanche de rua com guardanapo, lavar as roupas se possível antes de elas emitirem algum sinal de mal cheiro, entre outras. Pois bem, isso é higiene básica no Brasil, certo? Mas infelizmente não é em muitos outros lugares. Como diria o comediante Paulinho Mixaria “É verdade, eu pesquisei”. Note que não estou falando de casa tinindo de tão limpa ou de não sei quantos banhos demorados na semana (muitas vezes um verdadeiro exagero), mas de coisas ainda muito mais básicas.

Sentir cheiros estranhos vindo de pessoas nas ruas por aqui já é algo comum. Lavar as mãos ao chegar em algum lugar depois de usar transporte público, não vejo ninguém fazer. E com relação a escovar os dentes depois do almoço, eu já vivi as mais interessantes experiências. Pessoas me parando no banheiro e perguntando o porque eu faço isso, pessoas me elogiando, outras me olhando de canto e outras ainda achando engraçadinho. Ah, a quantidade de coisas que já me passaram pela cabeça para falar nestes momentos.

Este é um assunto batido eu sei, mas é impossível não valorizar mais isso na cultura brasileira depois que você mora fora.

Sinto que não é um sinal nada bom, quando um indivíduo chega a um ponto de descaso e descuido consigo mesmo, onde a higiene é severamente afetada e se descuidando bem além das questões básicas que mencionei acima e colocando em cheque o simples fato de estar limpa. Pelo menos aqui no Canadá, infelizmente vejo nas ruas muitos casos críticos de total descaso, e não estou falando somente de homeless não. Parece que no Brasil de forma geral (sim há excessões), a população não chega a este estágio de descaso pessoal, então ponto para nós.

2. Comida !

Permita-me uma boa dose de drama agora. E me desculpem, aqui vai ser impossível não comparar, mas como isso não representa uma crítica direta às pessoas, vou me dar a liberdade de fazê-lo somente neste item.

Pare e pense comigo. Pode um pote de batata frita, com um molho ruim de carne por cima, ser o prato mais típico de algum país? É possível que em 90% dos restaurantes, só existam opções de pratos assados ou fritos, sem nenhum tipo de comida cozida? Alguém pode chamar de churrasco, hamburgers e salsichas (ruins diga-se de passagem) jogadas na grelha? É verdade que não existem opções salgadas (coxinhas, pastéis, kibes, empadões…) para um lanche rápido? Suas opções de lanche salgado se resumem a sanduíches, somente, sanduíches? A resposta para todas estas perguntas quando você está aqui no grande e gelado país do norte, o Canadá, é sim! E eu poderia ir mais longe.

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Refeição mais típica do Canadá: Poutine.
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Refeição mais típica do Brasil: Feijoada, arroz branco, couve refogada, aipin frito, linguça assada, farofa temperada, vinagrete, salada e tem mais umas coisas alí.

Ah, a comida brasileira. Pausa. A comida brasileira!

Se neste momento você está pensando “Ah mas isso é porque ela nasceu no Brasil e foi acostumada com a comida de lá”. Pois bem, pergunte para gringos que você conhece ou veio a conhecer, o que eles acham da comida brasileira se já estiveram em nossa terra. Todos os estrangeiros que já estiveram no Brasil, com quem já conversei sobre o assunto, só tecem elogios para a nossa culinária. Quem sabe se eu estivesse morando na Itália ou na França, eu não estaria fazendo este drama todo, pois é, mas estou no Canadá.

Mineiros, quando penso em suas comidas típicas, quase posso sentir uma lágrima escorrendo da minha face. Porque vocês tinham que elevar tanto o padrão?!

Eu até pensei em fazer uma longa lista da nossa riqueza culinária incluindo toda a variedade de refeições, pratos, lanches e delícias que nós temos, mas acho desnecessário e sinceramente eu ia ficar muito deprimida.

Quando agente é jovenzinho qualquer sanduba ou fast food tá valendo, mas depois que passei dos 30 eu passei a valorizar muito uma boa refeição. Eu considero comida um item importante e essencial da vida, nada como uma refeição gostosa junto com os amigos ou a família! E é por isso que passei a valorizar muito este aspecto da nossa cultura morando fora. Aqui no continente da rapidez e da facilidade, parece que se perdeu um pouco esta valorização das refeições, geralmente elas são ou funcionais ou simplesmente, rápidas. E este é um aspecto de nossa cultura que basta um curto período de tempo fora para você passar a valorizar, muito!

3. Relacionamentos.

Sim, está em nossa natureza latina (mesmo muitos de nós sermos descendentes de europeus) esta proximidade real com as pessoas que nós cultivamos. Mais uma vez o objetivo não é relatar como somos melhores ou comparar, mas relatar um pouco como esta característica é boa e devemos valorizá-la.

Se você, como eu,  é abençoado com algumas amizades profundas e de longa data, você vai entender e tenho certeza que a maioria de nós brasileiros se encaixa aqui. Como é bom ter aqueles amigos com quem você pode ser totalmente você! Com quem você não precisa ficar ” pisando em ovos “, e com quem pode conversar sobre qualquer coisa, estar muito a vontade e no final dar um abraço apertado antes de ir pra casa.

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E o que falar sobre a figura forte que a família tem para as nossas vidas? Aquelas pessoas (sejam poucas ou muitas) que não importa quantas voltas o mundo dê, estão de braços abertos para nos receber e oferecer algo que podemos realmente chamar de lar.

Observe um pouco como filmes e seriados norte-americanos pintam a figura das mães de meninas por exemplo. Geralmente se trata de uma madame que julga tudo o que a filha faz e alguém com quem a filha não pode contar, mas precisa apenas se esforçar para ganhar aprovação. Isso acontece muito em filmes e se a maioria das mães norte americanas são assim, acredito que posso falar com segurança que não é o caso das mães brasileiras.

E sim, agente pode até falar para amigos e conhecidos, “Vamos marcar alguma coisa” e daí nunca marcar, tão típico não é? Mas eu noto (me chame de positivista) um sorriso sincero quando as pessoas falam isso na maioria dos casos, nós temos mais vontade de ficar junto! A correria da vida muitas vezes não permite, mas a vontade está lá.

Vou ainda mais longe e penso, será que nós brasileiros, e outros povos parecidos, não entendemos um pouco melhora profundidade deste versículo?

“Melhor é serem dois do que um, porque têm melhor paga do seu trabalho. Porque, se um cair, o outro levanta o seu companheiro; mas ai do que estiver só; pois, caindo, não haverá outro que o levante.” Ec 4:9-10

Saudades dos meus melhores amigos do Brasil!

4. A resiliência!

O famoso jargão “Brasileiro não desiste nunca!” pode ser interpretado de duas formas, ao meu ver. Primeiramente, que o brasileiro da um jeitinho pra tudo, aquele famoso jeitinho que em diversas situações é de torcer o nariz por ser incorreto. No entanto, a frase também pode ser interpretada como, o brasileiro tem força para ir até o fim independente das circunstâncias. Pode me chamar de positivista novamente, mas eu fico com a segunda definição.

Você já ouviu esta outra frase: “O Brasil não é um país para iniciantes” “Brazil is not for beginners” ? Desde cedo nós aprendemos que temos que cuidar de nós mesmos, que o mundo é perigoso, que temos que nos esforçar muito para ser alguém nesse país, que nada vem de graça e que não podemos contar com o governo pra nada. Isso tudo é muito ruim e como nós gostaríamos que fosse diferente! Porém não é, mas com certeza, todos estes aspectos nos tornam mais fortes, resilientes e adaptáveis.

Já conheço algumas histórias de brasileiros que brilham no exterior, não por serem gênios ou superdotados, mas simplesmente por serem esforçados, solícitos e muitas vezes dotados de formas diferentes de encarar um problema e isso os destacou. Obviamente outros povos, principalmente de países que viveram ou ainda vivem guerras, compartilham desta característica do brasileiro, não somos os únicos, mas somo um deles. Um povo que eu considero de forma geral, forte.

Hoje tenho o privilégio de praticar ciência em um país onde verba para pesquisa não representa um grande problema, mas sabemos que no Brasil isso representa sim uma grande barreira, muitas vezes, intransponível. Enquanto eu vivia esta realidade como  pesquisadora no Brasil, pude conhecer pesquisadores brasileiros que se destacam entre outros de países muito mais ricos, para mim isso representa muito bem um exemplo desta resiliência a que estou me referindo.

 

Obviamente existem muitas coisas que são bem melhores fora do Brasil, país onde infelizmente a corrupção se tornou um grande e destruidor câncer. Porém, eu considero estas quatro coisas importantes, e com certeza hoje dou muito mais valor para elas e como você deve imaginar, nada supera a número três em escala de importância!

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Written by Hellen Weinschutz Mendes

Nascida na boa safra de 1982 em Curitiba e residindo atualmente em Ottawa no Canadá. Bióloga, sempre curiosa, doutoranda, esposa, amante da natureza, apaixonada por viagens e dona de uma cachorrinha de orelhas macias.

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