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Relato de um cara que conheceu o outro lado

Experiência de quase morte, também conhecida por EQM, é quando uma pessoa está quase morrendo, já tá vendo a linda luz azul que o chama, mas fica alí na porta, não entra. Já na experiência de post-mortem, a pessoa entra na salinha e seu corpo permanece sem vida por alguns instantes até ser reanimado e voltar a viver. Ambas são assustadoras, com o corpo em seu extremo é fácil o cérebro se descontrolar e a pessoa ter alucinações, por isso relatos deste tipo de fenômeno nunca são confiáveis. Porém, esta história que conto aqui escutei de um rapaz que teve uma dessas experiências. Acho que foi post-mortem, (não sei o detalhe técnico dessas coisas) mas não sei exatamente qual foi, por que a alma dele pode ter saído do corpo enquanto o corpo ainda estava vivo e daí o fio de prata (??) ainda estava segurando ele etc etc etc. Mas também não interessa, o importante é que ele esteve por pouco tempo no outro lado, e me contou tudo o que presenciou lá.

João Doê. Em um domingo, ao fim de um conturbado churrasco em família ele saiu pilotando sua moto depois de ter tomado todas, quando bateu em uma van escolar (o que esta van estava fazendo num domingo a tarde na rua? Vai entender?!). Ficou gorgolejando sangue e sofrendo feito um cão por uns 20 minutos. A última coisa que lembrava antes de seu sentidos se esvanecerem foi escutar uma ambulância chegando. Foi aí que a dor começou a deixar seu corpo, e a ver a luz azul. Neste instante sentiu uma graaaande paaaaaaz…

A sensação de paz durou pouco, logo se viu em um largo corredor íngreme, escuro e úmido. Ele descia em meio uma grande multidão na frente e atrás dele. Não conseguir ver nada lhe dava desespero, e também não conseguia mudar o rumo da caminhada, sempre pra baixo, sempre pra baixo. A multidão e a inclinação do terreno não o permitiam voltar. Quando avistou um pouco de luz, percebeu que o corredor estava acabando, assim, sairam em um grande saguão muito alto onde o céu era pedra escavada. Devido o contexto, ali teve certeza que tinha ido para o inferno (morri, aqui não é legal e estou debaixo da terra). Não era como imaginava, aliás, parecia bastante organizado. Muitos metros à frente, no fim da ladeira, viu um paredão inteiro vermelho com imensas portas como de banco engolindo as pessoas. Pensou que alí deveriam ser a entrada do hades, pode ser que lá dentro seja mais parecido com o que imaginava. No meio do paredão viu até um logo em alto relevo com o nome do recinto em baixo. O desenho do logo era uma chama tosca estilizada (clichê, o logo do inferno uma ‘chama’?) e o nome ainda não conseguia ler direito pois as letras eram pequenas para a distância que estava, mas dava pra ver que era algo como “Satanás”, ou o nome dele em latim, grego ou sânscrito.

Até aí Doê estava calmo para o que estava prestes à testemunhar, na verdade ele estava mais curioso para ver se achava algum conhecido, entreteu-se por um tempo observando os rostos, e todos pareciam calmos na descida, como um só organismo, alheios ao que passariam. Poucos conversavam, talvez já se conheciam antes de morrer e o fizeram juntos? Ao voltar novamente ao paredão via as portas girando em velocidade e se alimentando das pessoas, então olhou para o logo sem criatividade e já conseguia ver um pouco mais o nome do inferno, ao invés de  “Satanás” começou a ficar mais nítido, algo como “Santanés”. Até se perguntou se quando estava vivo ele aprendeu as coisas certas, como se ao invés de Lúcifer o certo fosse “Lúferson” (um nome de pobre pro tinhoso). Fitando outra vez pra frente, notou que as pessoas não estavam mais passivas à descida, tentavam correr das portas. Viravam pra trás e lutavam inutilmente, pois as portas as sugavam como se tivessem um magnetismo às almas. Ele comentou com a pessoa ao lado, que também não entendia aquela mudança de ânimo das pessoas. Neste ponto começaram a ficar mais agitados por causa desta visão, e quando puderam chegar mais perto do paredão conseguiram ler pela primeira vez o real nome do lugar, aí sim ficaram com medo. Por que notaram que o nome não era nem “Satanás” nem “Santanés”, o que realmente estava escrito era: Santander. Imediatamente o desespero se tornou insuportável, todos os que estavam no mesmo nível que ele corriam em vão das portas na tentativa de salvar seu pós-vida (imagine este momento com a música ‘Ó Fortuna’ de fundo, o vídeo está abaixo).

João Doê não teve como escapar, foi sugado por uma porta giratória, sendo arremessado para dentro. Por causa do desespero de passar a eternidade dentro de um santander levantou-se o mais rápido que pôde procurando por uma saída, mas nada, só as portas giratórias que mandavam pra dentro, nada de portas de saída. Olhou para o salão infinito procurando algum rosto familiar, nem que fosse de um dos recém conhecidos, nada novamente. De um lado da sala uma voz o chama: “Doê! Doê!”. Logo sentiu um alívio por alguém ali conhecer ele. Olhando de onde vinha o som, enxergou Renato Aragão. Não era o que gostaria de encontrar, tantos anos de piadas sem graça e programação fajuta, mas ao menos era familiar. E o mais curioso: como é que ele me conhece? Ao se aproximar o Sr. Mocó tirou uma peixeira que trazia escondida, então decepou-lhe a orelha e perguntou: “Dói aêê??” (fazendo aquele típico joguinho com os dedos). Meu Deus!!! Será Didi Mocó meu algoz da danação? Sim, infelizmente era. Doê não sabia se doía mais orelha ou os ouvidos, um pelo corte e o outro por escutar aquele trocadilho horrendo. O capeta apresentou-se como seu gerente personalizado de contas Van Gogh, por isso teve que cortar sua orelha (ta dum dushhhh). Passou-lhe uma coleira e saiu caçando outros coitados para a condenação perpétua. Depois de conseguir sua cota de “clientes” o capeta Didi explicou que depois da política de customização de atendimento o torturador de cada pessoa seria alguém que a pessoa mais odiasse enquanto em vida. Isso explica o por que um Bolsonaro estava fazendo dog walk com professores universitários e alguns homosexuais, enquanto que um Jean Wyllys puxava um bando de paulistas e uma dupla de skin heads.

O capeta Didi arrastou para dentro da agência, por alguns quilômetros, os seus novos animaizinhos de estimação. Cantava pelo caminho várias piadas sem graça, às vezes esvaziava um extintor de incêndio neles, até que parou e acendeu um cigarro. Parecia cansado e triste, puxou uma cadeira e esclareceu um pouco mais sobre processo de “customização de danação” que estava deixando ele e outros verdugos descontentes com o trabalho. Explicou, saudosista, que o inferno era muito diferente há alguns anos. Era o clássico cavernão com um rio de fogo e enxofre que o contava de modo sinuoso, só pra ter mais espaço pra maltratar a boa gente que chegava a rodo. Tinha muito mais personalidade e dignidade. Mas, depois que o grande diretor de marketing argentino Juan Santaña chegou ali, mudanças ocorreram (só pra deixar claro, o capiroto não tinha contratado o cara, ele chegou ali como qualquer um que tinha uma vida dissoluta e profana, porém dominou a parada). Depois de um breve pitch com o Diabo em pessoa (que é o chefe do Didi e dos outros), convenceu-o que o cavernão teria mais potencial, ele poderia gerar mais agonia por segundo nas pobres almas. Então, Santaña fez vários pools, focus groups e surveys com os habitantes locais e descobriu que a customização do flagelo era grande nova trend do além. Pra que só usar padecimento físico, se poderiam usar psicológico também, para deixar o inferno mais eficaz? O diretor entrou em contato com os serial-killers que estavam disponíveis ali para entender mais de sofrimento, aprendeu muita coisa, todavia não seriam capazes de institucionalizar a dor, conseguiam fazer isso individualmente. Daí, procurou entre os inúmeros nazistas que estavam disponíveis nos calabouços do tártaro, afinal tinham criado auschwitz pra institucionalizar o assassinato poderiam dar idéias como aplicar o conhecimento na casa, porém eles sabiam muita coisa sobre como matar, mas pouco sobre como torturar. Mesmo juntando todas estas informações, Santaña não conseguiam fechar um projeto nem ao menos razoável para o novo hades. Ele sabia que não podia entregar nada menos do que o pata rachada esperava, ou senão teria atenção especial em sua danação. Assim, em uma atitude desesperada, procurou os pequenos demônios encarregados do serviço sujo do martírio pra tentar entender mais a fundo o problema. Durante as conversas, por sorte, descobriu que alguns algozes tiravam um tempo de descanso e usavam gerentes de bancos para serem seus substitutos. Os olhos do marqueteiro brilharam: “é isso, um banco!”

A versão 2.0 do abismo não demorou muito para ficar pronto. Usando força de trabalho escrava de milhares de almas, o serviço foi feito praticamente do dia para a noite. Porém, os resultados esperado nunca eram alcançados. Os gráficos apontaram uma tímida subida nos picos de angústia física e psicológica, mas nada que compensasse todo aquele esforço. Vendo que sua batata estava assando o diretor chamou novamente os gerentes:
– Em qual banco vocês trabalhavam em vida?
– Santander! – Disseram eles.
Pronto! Como não pensei nisto antes? Agora sim o marqueteiro quase desmaiou em êxtase. Sim, agora sim vai dar certo! Fizeram a versão 3.0 do inferno copiando uma agência do santander, aliás primeiramente deram-lhe o nome de Satãnder, mas logo viram que o nome original traria mais desesperança. Demorou muito mais para transformar um banco normal em santander, mas valeu a pena. Junto com o já clássico banho no lago de fogo, empalações, ducha de óleo quente, pau-de-arara, tortura russa e mesa redonda sobre “o sexismo e o capitalismo de gênero” (???) (sim, desconexas e intermináveis), agora também teriam, atendimento de SAC, fechamento de conta, cancelamento de cartão de crédito, aconselhamento de investimento e etc. Se existisse algum conselho de ética, secretaria de direitos humanos ou convenção de Genebra das trevas, isso nunca passaria.

Enquanto estava cabisbaixo e desconsolado, em seu terceiro cigarro, discorrendo sobre quão baixo o inferno se tornara para poder virar um santander (venderam a alma do inferno para alguém pior que o capiroto), o capeta Didi olhou para João Doê e viu-o desvanecendo. Assim sorriu com um pouco de esperança, acenou um tchau e falou: “aproveite muito bem sua segunda chance, pissiti!”.

João Doê acordou dentro da ambulância com um respirador na boca logo depois de ter levado um choque do desfibrilador. Não conseguia acreditar no que acabara de presenciar. Impossível! Mas não. A experiência foi um divisor de águas: nunca mais bebeu, tornou-se trabalhador, frequentava a igrejinha onde a mãe ia, casou-se e agora tem um casal de filhos. É desnecessário falar que nunca mais entrou dentro de qualquer agência bancária. Quando sobra dinheiro em seu mês de trabalho faz questão de doar tudo pra quem está precisando, pois descobriu que o inferno se tornou o lugar pra quem gosta muito dele. E o melhor de tudo, mesmo depois de crente, nunca fez papelão em redes sociais.

ps.: mais um videozinho para quem não quer cair nas armadilhas de satanás.

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Written by Paulo Cordeiro

É um guarapuavano tão vadio, mas tão vadio, que pensou seriamente em sair do Kamellos só para não escrever este texto. Gosta de fazer massas com sua máquina panificadora e gostaria de ter inventado o Waze. Um dos 4 Seres Viventes.

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