O que José no Egito, Salomão, o profeta Neemias, o profeta Daniel, Jesus Cristo, Paulo Lutero, Calvino, Newton, Bacon, Einstein, Martin Luther King teriam em comum? Foram grandes sábios que deram início às maiores revoluções na história sem levantar uma única espada. Mas mesmo sem espadas, eles lutaram pelo que acreditavam. Foram guerreiros da escrita e da palavra. Corajosos, muitos deles tiveram que pagar pela sua audácia. Algumas vezes com a vida. O mundo precisa mais desse tipo de guerreiro.

 

Em um post anterior eu falei sobre a noção de guerreiro como uma importante característica do homem. Neste post quero falar como essa característica não se restringe as figuras de que normalmente vem à nossa mente quando falamos de guerreiros; existem outros tipos de guerreiros.

Portanto, quero falar sobre o sábio.

Não existe uma idade exata de quando um homem atinge o patamar de sábio. É difícil também definir o que é um sábio. Segundo uma definição básica seria “aquele que sabe muito, que tem extensos e profundos conhecimentos, erudito”.

Alguns homens se tornaram sábios ainda jovens na vida outros mais tarde. Jesus morreu em torno dos 33 anos e foi considerado (até por pensadores seculares) um sábio. Martin Luther King realizou a marcha sobre Washington e fez seu famoso discurso “I have a dream” em 1963, aos 34 anos.

O sábio é aquele que não somente tem profundos conhecimentos, mas também aquele que consegue perceber padrões nesses conhecimentos e retirar soluções que não foram encontradas anteriormente por outros. Pensemos em Newton.  As “famosas” leis de newton são as bases da mecânica clássica. A lei de gravitação universal, também parte da mecânica clássica, é uma aplicação das leis de newton a um problema que se tinha alguns dados astronômicos e algumas intuições (atração sendo inverso da distância).* Ele ficou de “pé sobre os ombros de gigantes” (frase atribuída à ele) , gigantes que construíram o conhecimento antes dele e conseguiu visualizar leis antes desconhecidas dos teóricos. E isso após se debruçar exaustivamente sobre os livros.

Também para alcançar a sabedoria, é necessária experiência, daí a ideia de imaginar sábios como anciões. O que como já disse acima não é inteiramente verdade, apesar de ser o mais comum. A autoridade do sábio vem com sua experiência.

Na proposta de John Eldredge, em “A grande aventura masculina”, a última fase na vida de um homem seria a fase do Sábio. Sobre experiência e autoridade (e a falta desses dois atributos na sociedade atual) ele comenta:

“Há homens demais, dispostos demais a oferecer seus pensamentos sobre assuntos em que eles não possuem experiência – especialmente experiências com Deus – e sua “sabedoria” não está baseada na realidade. É teoria, no melhor dos casos, mais provavelmente especulação, não testada e não provada. Na pior das hipóteses, resume-se a ideias roubadas. Tal confusão enche as prateleiras da maioria das livrarias. O Sábio, por outro lado, sabe do que fala, pois fala baseado em sua experiência, a partir de um vasto reservatório de autodescoberta.” (John Eldredge. A grande aventura masculina, p. 297).

 

O velho sábio, pintando por Rembrandt em 1632, quando ele tinha 26 anos, representa um estereótipo, com o subtítulo “o filósofo em meditação”.  Sobre sua mesa, livros sendo compostos.

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Outra pintura de Rembrandt, “Paulo na Prisão”, de 1627, mostra o apóstolo chupando o dedo refletindo com seus livros e parece estar compondo uma de suas cartas. Paulo, judeu converso e o primeiro teólogo do cristianismo, foi preso por suas ideias.

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           Já no início da Idade Moderna, Martim Lutero foi preso e perseguido pela Igreja Católica por promover uma Reforma. Enquanto estava preso em um castelo para sua própria segurança, Lutero começou a tradução do Novo Testamento para tornar acessível a Bíblia para todos os alemães. Suas ideias, juntamente com outro reformador, Calvino, mudaram os rumos de toda a sociedade ocidental e influenciaram não somente o campo religioso, quanto o político, cultural e econômico.

            A ficção também é rica em sábios que foram fundamentais para o desenvolvimento da história.

          Merlin se tornou um arquétipo mítico do sábio, sem o qual Artur não poderia ter sido rei. C. S. Lewis apresenta o Dr. Cornelius, o mentor meio-duende do príncipe Caspian, assim como o Professor, dono da casa onde as crianças encontram o guarda-roupa e por cuja sabedoria são salvas da aridez da razão e lançadas no mundo de Nárnia.

            Em Star Wars, Yoda é um sábio clássico. No Episódio I, ele diz: “O medo leva à ira, a ira leva ao ódio, o ódio leva ao sofrimento”.

            Sempre me impressionou a figura do sacerdote idoso em “O Conde de Monte Cristo”:

            – Aqui está sua lição final: não cometa o crime pelo qual você cumpre a sentença. Deus disse “minha é a vingança”.

            – Eu não creio em Deus – responde Dantes.

            – Isso não importa. Ele crê em você.

            Não podemos nos esquecer de Gandalf aconselhando e formando a Sociedade do Anel em “Senhor dos Anéis” (O próprio Tolkien foi um grande sábio que além de escrever ficção, era professor acadêmico e tradutor).

          Na bíblia aparecem umas frases que sempre me intrigaram sobre sábios:

“destros na ciência dos tempos” (1 Cronicas 12:32)

“sábios que entendiam dos tempos” (Ester 1:13);

Daniel e seus amigos eram :

“instruídos em toda a sabedoria, e doutos em ciência, e entendidos no conhecimento” (Dn 1: 1-6

          O sábio nos tempos bíblicos eram aqueles que compreendiam o “espírito de sua época”. Daniel, por exemplo, era um jovem quando chegou à corte babilônica e procurou estudar sobre a cultura em que estava inserido, buscando compreender seu contexto. Foi tido como um sábio.

      Enfim, poderíamos citar inúmeros outros exemplos de sábios que lutaram não com espadas, mas com escrita e palavras. Já foi afirmado que o poder de um exército reside na sabedoria dos estrategistas e não no número de soldados.

       O que quero enfatizar é que o ser guerreiro não reside exclusivamente em brandir espadas e ter músculos. Alguns guerreiros fizeram mais com sua inteligência do que com seus músculos. Foram corajosos e impetuosos, lutando em seus campos de atuação pela transformação de seus contextos.

            Em nossa sociedade temos falta de sábios e aos poucos que existem não damos ouvidos. Mas ainda existem muitas formas de acessarmos a sabedoria produzida no passado e no presente. Busquemos entabular conversas imaginárias com os grandes sábios, através de sua escrita e de sua história de vida. Quão precioso é uma xícara de café ao lado de Agostinho! As grandes obras nunca estiveram tão acessíveis quanto hoje. Basta-nos estender a mão e procurar percorrer o caminho da sabedoria.

Mas sigamos o conselho de Tiago:

“Quem dentre vós é sábio e entendido? Mostre pelo seu bom trato as suas obras em mansidão de sabedoria.” (Tiago 3:13)

            O sábio é não somente aquele que sabe profundamente sobre as coisas, mas também aquele que sabe comunicar as verdades em amor, que age com mansidão.

            Em um tempo em que a internet é a fonte de conhecimento, temos uma imensa falta de sabedoria. Os sábios são desprezados porque aparentemente o conhecimento está disponível à  todos. Na verdade o que está disponível são dados. Conhecimento é transformar esses dados em um todo coeso; transformar a informação em um conhecimento significativo.

            Busquemos a sabedoria. Mais. Prestemos atenção aos sábios. Em toda a história da humanidade, os que fizeram uma diferença impactante foram aqueles que se preocuparam em teorizar, em escrever e a ensinar outros sobre verdades inegociáveis. O mundo não é movido somente por guerreiros, mas por também por aqueles que conseguem compreender o espírito de seu tempo e impactarem outros com seus ensinamentos.

*Obrigado Eliezer Silva pelo toque nessa parte.

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Written by Adriano Borges

Historiador, professor na UTFPR, casado com a mosaicista Mabel e pai de dois filhos.

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