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Semelhanças e diferenças entre o sistema de ensino superior no Brasil e no EUA

Os sistemas de ensino superior no Brasil e no EUA organizam-se de forma diferente, e nem sempre as nomenclaturas e suas equivalências são claras. Você sabia que grad school é diferente de graduação? E que PhD e doutorado são sinônimos? Nesse artigo, iremos comparar os dois sistemas, pontuando suas semelhanças e diferenças,  e esperamos esclarecer algumas confusões e mal-entendidos que possam existir.

Ensino superior (em inglês: higher education) refere-se à educação formal não obrigatória, cursada após o ensino médio. No Brasil, ele é regulamentado pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC) e oferecido por instituições de ensino superior, como faculdades e universidades. O primeiro nível do ensino superior é a graduação, na qual a pessoa estuda um determinado campo de conhecimento e adquire habilidades para exercer uma profissão. Por exemplo, licenciaturas qualificam o profissional para ser professor, ou cursos como engenharia e farmácia formam profissionais para atuar (adivinha?) como engenheiros e farmacêuticos. Ao concluir a graduação, a pessoa está habilitada a registra-se em conselhos profissionais e atuar naquela profissão, e essa é uma diferença importante em comparação ao sistema americano (segure essa ideia que vamos voltar a ela mais adiante).

No Brasil, terminada a graduação a pessoa pode optar por dois tipos de pós-graduação, latu sensus e stricto sensus(1). A primeira refere-se a especializações: elas têm um foco prático e abrangente, e treinam o profissional em habilidades aplicadas a uma profissão. Um contador pode especializar-se em auditoria, um advogado em direito civil, ou um professor em educação especial. A pós-graduação stricto sensus refere-se a mestrados e doutorados. O foco dessa formação é a pesquisa, e o aluno dessa modalidade de curso é treinado em como conduzir estudos científicos, analisar dados, escrever artigos, e estender o conhecimento do seu campo de estudo. Apesar da profissão de cientista não existir no Brasil, alunos de mestrado e doutorado, assim como seus orientadores, são cientistas.

Graduação versus undergrad

No EUA, após o ensino médio (high school), a pessoa pode ir para uma universidade ou uma faculdade para fazer um undergrad. Essa palavra fará mais sentido quando explicarmos o que é grad school, mas por hora basta entender que undergrad é mais ou menos equivalente a nossa graduação. A diferença é que, no undergrad, o aluno escolhe uma disciplina principal e uma secundária, chamadas de major e minor, geralmente no início do segundo ano. Portanto, quando os alunos entram no ensino superior no EUA, eles não precisam saber o que vão estudar. No Brasil, a escolha do curso é feita na hora da inscrição para o vestibular. O major e minor correspondem vagamente aos cursos de graduação que nós temos no Brasil. Porém,  lembra a diferença importante entre graduação e undergrad que comentamos anteriormente? Pois então, ao formar-se no undergrad, a pessoa geralmente ainda não está habilitada a atuar na profissão que cursou como major e minor. Por exemplo, uma pessoa que quer ser médica precisa cursar disciplinas no que se chama de “pre-med”: biologia e química orgânica são duas das principais matérias desse major. Alguém que pretende atuar como advogado terá que cursar disciplinas como filosofia e economia. Porém, em ambos os casos, ao acabar o undergrad, a pessoa terá que buscar uma continuação nos estudos para poder tornar-se profissional da área.

Pós-graduação versus grad school

E é aí que entra grad school: um curso que forma a pessoa em nível equivalente à pós-graduação no Brasil Ou seja, depois de cursar as disciplinas de pre-med, um futuro médico terá que se candidatar para uma Med School (escola de medicina, em tradução livre),  e passar mais 4 a 6 anos estudando para formar-se Medical Doctor, ou M.D. (quem assiste House e outros seriados médicos já viu essa sigla). Um futuro advogado irá para Law School, um futuro enfermeiro para Nursing School. Esses programas são chamados professional doctorates e a lista de cursos que dão à pessoa um título de Doutor em X é enorme. Vale ressaltar que nem todas as profissões exigem um doutorado. Para algumas, requer-se mestrado. Por exemplo, MBA significa Masters of Business Administration, e é exigido para quem quer atuar na área de administração. No EUA, MBA é um curso de mestrado, já no Brasil é uma especialização. Porém, há diferenças entre o escopo de um mestrado no Brasil e no EUA: enquanto no Brasil, esse é uma formação focada em pesquisa, no EUA ele tem um formato mais parecido com uma especialização brasileira. Outra informação importante é que a diferença entre universidade e faculdade no EUA: a primeira, refere-se a uma instituição na qual os alunos estudam em tempo integral e com cursos de nível de pós-graduação (graduate school), faculdades são meio-período e geralmente oferecem apenas cursos de graduação e profissionalizantes.

Na maioria dos casos, após ter alcançado os requerimentos para titulação, o candidato à profissão precisa passar por um exame, da mesma forma que advogados no Brasil fazem a prova da OAB. Só depois de cumprir todas essas etapas é que a pessoa torna-se um profissional credenciado e pode começar a atuar na área.

No EUA, ainda existe uma outra categoria de doutorado, o research doctorate, dos quais o mais famoso é o PhD (Doctor of Philosophy). Esse título é equivalente ao doutorado no Brasil. O PhD assim como nosso doutorado, tem foco em pesquisa(2): uma pessoa com PhD geralmente está envolvida em fazer ciência, seja numa universidade ou em um instituto dedicado a isso, como professor, instrutor ou pesquisador. Ou ela desistiu dos sofrimentos da vida acadêmica(3) e foi ganhar dinheiro na indústria.

Custo da educação superior no EUA

O sistema de ensino superior no EUA é pago, mesmo em universidade públicas. A tuition, ou mensalidade, paga semestralmente, varia de aproximadamente US$5.000 em universidade estaduais, até US$35.000 em universidades particulares. E esse é o valor do semestre! Agora multiplique por oito semestres – quatro anos – e os valores chegam a US$280.000! Apesar de existirem diversas formas de bolsas e financiamentos estudantis, o custo do undergrad aumentou significativamente nas últimas décadas(4) e as pessoas começam a questionar se esse é um investimento vantajoso. Esses valores pode dobrar se a pessoa precisar fazer um mestrado ou doutorado para poder atuar na profissão dos seus sonhos. Por isso, é bastante comum que profissionais jovens tenham dívidas de milhares de dólares, o que tem tornado-se um problema para o país: como esperar que jovens adultos tenham estabilidade financeira quando já começam a carreira com um débito enorme? Isso tem levantado o debate sobre possíveis mudanças no sistema, para torná-lo mais barato ou até gratuito. Mas isso é história para outro dia.

Em programas de PhD, o cenário é diferente. Os alunos dessa modalidade são considerados “empregados” das universidades: trocam sua mão-de-obra, ao conduzirem e publicarem pesquisas, por um diploma. Por isso, a maior parte dos programas de PhD oferecem tuition waiver e pagam uma stipend para os alunos: ou seja, os alunos não pagam para estudar e recebem uma bolsa.

Brasil x EUA?

À primeira vista, o sistema estadunidense parece formar profissionais melhores, já que quase todo mundo têm pelo menos um mestrado. Porém, lembre-se de que o undergrad não forma profissionais. Por exemplo, as matérias de um major em Psicologia, que leva quatro anos para ser alcançado, são o equivalente ao primeiro ano de qualquer curso de psicologia no Brasil. Ou seja, um major em Psicologia no EUA sabe tanto da área quanto um aluno concluindo o primeiro ano de uma graduação no Brasil. Para tornar-se psicólogo no EUA, depois do undergrad, a pessoa terá que investir mais quatro anos para realizar um Psy.D (doutorado em psicologia). Isso equivale aos quatro anos que um calouro de psicologia ainda tem pela frente. No final, a qualidade de um profissional brasileiro é a mesma de um profissional americano. E, obviamente, qualidade profissional varia imensamente e tem a ver com fatores que vão muito além da formação acadêmica. O ponto mais importante aqui é que a trajetória para formação profissional nos dois países é diferente, mas ambos os sistemas formam profissionais de forma adequada às necessidades e idiossincrasias de cada país.

Notas de rodapé:

  • Latu sensus e stricto sensus são expressões em latim, e significam “sentido amplo” e “sentido restrito”, respectivamente. A explicação técnica da diferença entre as duas pode ser encontrada no site do MEC: https://goo.gl/CrPqkK
  • Apesar do nome, PhD não tem necessariamente a ver com filosofia. Esse nome surgiu ainda na idade média, e também vem do latim Philosophiae Doctor.
  • Quando falamos de universidade, pesquisa, congresso científico e afins, a palavra academia ou meio acadêmico costuma aparecer. Uma curiosidade sobre a palavra academia é que ela é de origem latina também (capaz!). A palavra já era usada na época de Platão, para designar um pátio arborizado onde filósofos reuniam-se para ensinar e debater filosofia.
  • Estima-se que o aumento entre 1988 e 2018 foi de cerca de 160%: https://goo.gl/iMbXMS

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Written by Juliana Popovitz

Nascida em Curitiba e atualmente morando em Baltimore, EUA. Psicóloga e cientista por paixão, doutoranda por necessidade. Fotógrafa amadora, nerd de carteirinha, gamer, apaixonada por gatos e vinhos. Péssima cozinheira e não sabe ver as horas em relógio analógico.

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