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Sobre filmes baseados em quadrinhos

O momento para o leitor de quadrinhos que sempre esperou para ver seu herói favorito no cinema não poderia ser melhor. Estamos vivendo a fase mais abundante de versões cinematográficas de aventuras de super-heróis. Tem para todos os gostos, estilos e expectativas.

Mas se tem tantas opções, porque tem tanta reclamação?

Acredito que num primeiro momento, podemos tentar chegar a alguma conclusão dividindo o público que consome essa mídia em dois grupos: os leitores de quadrinhos e os não leitores. A expectativa é totalmente diferente.

O leitor de quadrinhos é exigente, quer uma experiência quase que transcendental. Quer ver aquela versão do seu personagem favorito na versão de tal desenhista com aquela armadura e com aquela arma nas telas. O vilão precisa ser uma cópia fidedigna do que está no quadrinho: assustador, implacável, marvadão e rindo muito (é curioso como vilões gostam de gargalhadas). Se o nome do filme leva o nome de um quadrinho, espera-se que a história seja contada o mais próximo possível do original, de preferência com todos os personagens. Amém.

Já o não leitor não carrega esse tipo de fardo expectativa. O foco dele é a diversão, a aventura. Ele não quer saber se tal personagem é da Marvel, DC ou Vertigo, ele quer ver o filme. Pronto, simples assim.

Best Robin Hood
Ah, conheço esse personagem, É da Marvel né? Gavião Verde… Arqueiro… Sei lá, alguma coisa assim. Meu pai tinha uns gibis e daí…

Num outro nível, podemos dividir o leitor em leitor exigente e leitor sussa. O leitor exigente quer, como citei acima, tudo nos mínimos detalhes. Ele vai ver o filme do Wolverine e espera que quando as garras sejam ejetadas, ele ouça nitidamente SSSNIKT! Ele até aceita o Hugh Jackman como Wolverine, mas tem um nó permanente na garganta porque o ator ideal deveria ter 1,62m de altura, ser tão peludo quanto o Tony Ramos, usar o uniforme marrom, fumar como o Bruce Willis em Duro de Matar e, quando estivesse à paisana, usar um tapa-olho.

Wolverine
Se um dia ele aparecer assim num filme, você vai ver muito marmanjo emocionado, chorando no cinema!

O leitor sussa quer um filme bem feito, mas ele sabe que existem limitações. Ele sabe – e também se frustra por saber – que os estúdios não fazem filmes para agradar apenas os fãs, mas para atingir um público bem maior. Ele sabe que o Watchmen do cinema não chega nem perto de transmitir o que está no quadrinho, mas ele curte porque achou que a caracterização ficou bem feita ou porque tem diálogos idênticos ao quadrinho. Ele sabe que o Demolifleck é fraco, mas gosta porque… porque… ele gosta ué!

Agora mudando um pouco o foco: é possível fazer um filme 100% fiel a um quadrinho? Eu acredito que não. Um exercício mental interessante é tentar imaginar como algumas coisas funcionariam na tela. Já imaginou todos aqueles diálogos de Watchmen em um filme? Precisaria no mínimo de uma trilogia! E a chance de se tornar algo maçante, cansativo é bem grande. E se X-Men – A Era de Apocalipse fosse totalmente fiel ao quadrinho? O elenco seria enorme, a história confusa e precisaria de uns 10 filmes antes para criar o fundamento para a história. Consegue imaginar uma versão de Sandman? Então…

Claro que sabemos que não acontece dessa forma. O que é feito para o cinema é uma adaptação, uma versão que pega uma ideia aqui e ali, às vezes de um quadrinho, às vezes de vários. O filme precisa ser atraente, precisa funcionar para qualquer público e com isso muita coisa precisa ser sacrificada, transformada.

Apocalypse
Se o Apocalipse dos X-Men tivesse essa carinha, não precisaria nem abrir a boca pra meter medo em todo mundo.

Aqui entra outro ponto: o que é uma adaptação boa e uma adaptação ruim?

Entendo que uma boa adaptação não precisa contar exatamente o que está no quadrinho, mas precisa ser coerente, fazer sentido e respeitar a identidade e a história dos personagens. O Batman de Tim Burton não é o melhor de todos, mas é o Batman! A versão do Nolan para o Homem-Morcego é fantástica, o preferido da maioria esmagadora. Ele usou elementos de várias histórias e construiu um universo diferente, mas que sempre respeita quem é o personagem. Os filmes da Marvel também fazem isso muito bem. O Thor dos filmes é muito arrumadinho, precisaria ter um visual mais Viking e sorrir menos (ou melhor, nunca sorrir), mas na essência é o Thor. A mitologia do personagem está devidamente contada, independente de história boa ou fraca.

Já uma adaptação ruim sofre com tramas cheias de clichês, frases prontas, personagens mal utilizados, excesso de alívio cômico e incoerências. Se nos quadrinhos eu tenho um Apocalipse (com I) que é imponente e aterrador, é claro que uma versão que parece uma goma de mascar vai incomodar e frustrar. Há pouco tempo eu reli A Morte do Superman, e foi lendo que percebi o quanto que no filme Batman Vs Superman esse plot ficou longe das expectativas (assim como o resto do filme).

Mesmo que você nunca tenha lido Superman em toda sua vida, o quadrinho introduz o personagem para você e você se afeiçoa a ele de imediato. Quando ele luta com o Apocalypse (com Y, super criativo), você sofre junto, e quando ele tomba, você sente a emoção do momento. No filme não tem esse sentimento. Não há como se afeiçoar ao Homem de Aço porque simplesmente ele passa o filme todo com aquela cara de sofrimento e quando ele luta no final você quer acabe logo. Só isso.

doomsday-kills-superman

Não acredito que exista e nem que venha a existir um filme de super-heróis que agrade à todos (sim, inacreditavelmente existem pessoas que não gostam do Coringa de Heath Ledger). Aliás, não existe nenhum filme que agrade a todo mundo. No entanto, acredito que as pessoas podem fazer suas escolhas, e fazer isso independente do que dizem para elas gostarem. Hoje existe uma “forçacão de barra” para que as pessoas gostem dos filmes de heróis. É um mercado muito rentável e as divulgações são cada vez mais agressivas.

Muita coisa é entregue de antemão ao espectador. Trailers, teasers, imagens, entrevistas, os pavorosos trailers comentados, segredos de gravação e mais um monte de baboseiras que criam uma expectativa enorme! Quando chega perto do lançamento do filme a pessoa está tão saturada de informação e de expectativa que o resultado só pode ser um: esse filme precisa ser bom! Frustração não é uma alternativa.

Isso é muito ruim. Com esse comportamento muita gente (muita gente não é todo mundo) deixa de pensar por si e pensa baseado na emoção que desenvolveu. O Esquadrão Suicida por exemplo teve uma divulgação que ultrapassou 1 ano de duração! Como fica a expectativa da pessoa que está todo esse tempo acompanhando o filme? Existe a possibilidade dela achar ruim? Pense nisso.

Bom, essa é uma pequena reflexão sobre um assunto que ainda vai muito longe. Tem muito filme de herói para os próximos anos, coisas boas e coisas ruins. E aí, qual é o seu perfil? Qual é sua opinião sobre isso tudo? Deixe seu comentário. Valeu!

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Written by Chico Milk

Chico Milk nasceu em Guarapuava City Paradise. Um dos quatro seres viventes. Guitarrista low profile, amante de dias frios, chuvosos e cinzentos, bebedor nato de café com leite, leitor de livros e quadrinhos.

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