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Sobre quando decidi descer a colina.

Pessoas com mais de quarenta anos dificilmente se convencem de alguma coisa por muito tempo. Aos dezoito, nossas convicções são colinas onde contemplamos o horizonte

Sempre que penso sobre convicções e mudanças, lembro desse trecho. Ele pertence ao conto Bernice Corta o Cabelo, escrito há quase 100 anos atrás por F. Scott Fitzgerald.

Durante minha adolescência e parte da vida adulta, construí minhas convicções sobre minha vida. Escolhi os tipos de amizade, as músicas que seriam ouvidas, os livros que seriam lidos, as roupas que usaria, tudo. Até aí nenhuma novidade, todo mundo faz isso, consciente ou inconscientemente. O problema é quando essas convicções se tornam engessadas e são cercadas por regras.

Ao subir na colina e contemplar o horizonte das suas convicções, você corre o risco de deixar passar muita coisa boa pela sua vida. Reduzir seu interesse para coisas que se assemelham apenas ao que você curte pode fazer de você uma pessoa limitada. E ainda tem o agravante de quanto mais tempo você demorar para perceber isso, mais você se torna duro, ranzinza e intocável.

Em um determinado momento da minha vida, decidi experimentar, tentar ver tudo por outro ângulo, sair da frente da árvore e procurar um lugar onde eu pudesse ver a floresta toda.

No começo não foi fácil, parecia que eu havia traído tudo o que havia construído até aquele momento. No entanto, conforme eu ia experimentando as mudanças eu não só ia percebendo o que havia perdido como também o quanto eu era cabeção.

Ah sim, mudar minhas convicções não significa que eu me tornei um vida loca. Convicções são mutáveis, mas princípios são inegociáveis e em nenhum momento eu os abandonei para mudar de vida.

Há alguns anos, por exemplo, eu supervalorizava o silêncio pela manhã. Não era mal humor (eu acho), mas eu simplesmente gostava de ficar quieto, na minha. Eu levava isso para onde fosse, porque era minha convicção, eu tinha de manter isso. As pessoas simplesmente não falavam comigo porque eu não podia falar. Sim, bem ridículo assim.

Curiosamente eu sempre fui conhecido por ser uma pessoa fácil de se relacionar e por ser muito comunicativo. Estranho não é? A contradição era enorme e eu precisava tomar uma decisão quanto a isso. A oportunidade veio quando comecei a trabalhar com treinamento. Aí acabou a folia de ficar quieto de manhã, porque não era mais do meu jeito.

Confesso que estranhei no começo, mas acabei gostando da mudança e esse foi o momento que percebi que poderia ser melhor com pessoas, que gostaria de aprender mais sobre elas. Como fiz isso? Uma boa parte, lendo! Comecei a procurar livros sobre comportamento, perfil, sobre entender do que as pessoas gostam, o que elas querem, de onde elas vem e para onde vão. Foi meu passo para fora do círculo de leituras e autores de sempre. Pode não parecer, mas foi uma mudança enorme!

Hoje sou muito diferente da pedra convicta que eu era na juventude. Decidi descer da tal colina das convicções e começar a questionar absolutamente tudo. Não me tornei um cético, mas aprendi a não aceitar as coisas simplesmente pela convicção de que é bom. Hoje entendo que o que não me agrada nesse momento da minha vida pode ser totalmente agradável daqui a cinco, dez anos.

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Outro exemplo de mudança são os mangás. Sim, mangás! Pensa num cara que cresceu formatado na leitura de quadrinhos. Era Marvel e DC ou nada. Torcia o nariz para materiais fora desse eixo e mangás certamente estava no topo da lista de leituras que eu desprezava. Aquelas bocas enormes, gotinhas de suor paradas na testa, cabeções e pernas quilométricas, tudo muito alucinado, blergh!, tinha pavor disso! É claro que eu estava generalizando, achava que era tudo igual.

Há cerca de dois anos, passei numa banca e gastei algum tempo olhando os mangás. Fiquei um pouco desconcertado com o que encontrei, porque pelo menos a arte era muito diferente daquilo que eu tinha em mente sobre aquele tipo de publicação. Após gastar algum tempo pesquisando sobre o assunto decidi me aventurar e o resultado foi surpreendente!

Vagabond
Detalhes… milhões… sensacional!

Mangás abordam situações e assuntos que sinceramente eu nem imaginava que poderiam ser abordados em uma revista em quadrinhos. A velocidade e a intensidade são muito diferentes, a arte – dependendo do material que você escolhe – é digna de você gastar alguns segundos a mais só para ficar admirando e a qualidade das histórias é de muitas vezes derrubar o queixo. Um exemplo disso é a frase criada para descrever Lobo Solitário, o mangá que é facilmente comparado a obras como Watchmen e Cavaleiro das Trevas: ou você gosta de Lobo Solitário ou você nunca leu Lobo Solitário. Deu pra sacar né?

Esses são apenas alguns exemplos, mas já servem para ilustrar o que quero dizer. A vida demanda esforço, capacidade de adaptação e disposição para mudar. Se você simplesmente deixa a vida te levar, certamente vai deixar muita coisa boa para trás. Esteja certo de que a sensação de vida causada pela mudança é muito maior e melhor que a sensação de incômodo ou perda. Faça a vida valer a pena, permita-se mudar.

😉

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Written by Chico Milk

Chico Milk nasceu em Guarapuava City Paradise. Um dos quatro seres viventes. Guitarrista low profile, amante de dias frios, chuvosos e cinzentos, bebedor nato de café com leite, leitor de livros e quadrinhos.

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