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Sobre reforma do ensino – um ode às humanidades e às artes

Nos últimos dias uma notícia abalou aqueles que estão ligados à educação, ou que ao menos se importam com ela (ou seja, todos deveriam tirar um tempo para refletir sobre o assunto): o projeto do governo federal de reforma do ensino médio. Esse projeto prevê flexibilizar a trajetória do estudante, podendo este optar por disciplinas que pretensamente venham a ter mais sentido para sua futura opção de carreira. Meu comentário aqui vai além de falar detalhadamente sobre os elementos do projeto (preciso de uma leitura mais atenta pra fazer isso), e também para além de discutir se os adolescentes e jovens tem maturidade suficiente para escolher que disciplinas devem cursar (eu, pessoalmente, que tive dificuldade de escolher a faculdade que eu iria cursar, não teria maturidade para escolher as disciplinas que fossem importantes para minha formação durante o ensino médio). O que vou comentar, é algo mais heurístico, é tentar perceber a implicação da mentalidade de se retirar certas disciplinas e como isso é problemático.

Pra mim um ensino completo e integral deve abranger a maior quantidade de disciplinas possível. Eu, como pai, quero que meus filhos tenham contato com música, artes, matemática, português, ciências…porque acho que assim eles terão uma boa base para o que eles quiserem escolher como profissão, seja ser advogado, jornalista, professor, artista, engenheiro. Neste sentido, penso que, por exemplo, a matemática não serve somente para aqueles que querem seguir áreas de exatas: serve também para obter-se um pensamento lógico, por exemplo. Eu como historiador, senti falta de ter tido um ensino nessa área mais forte, tendo dificuldades mais tarde. Mesmo em história, preciso saber interpretar bem um gráfico, analisar dados.

Da mesma forma alguém que segue o curso de engenharia precisa saber se comunicar e escrever bem. Como apresentar um projeto sem ter domínio sobre a escrita e a fala? Como sermos bons cidadãos sem um pensamento crítica que as humanidades nos oferece?

Eu vejo essa busca por cortar certas disciplinas do currículo um grande retrocesso mundial. Sim, isto é uma tendência seguida em diversos países, na cola do exemplo dos Estados Unidos. Lá, a opção por cursos em áreas de tecnologia é uma tendência forte. Entretanto, observando um pouco mais a fundo a educação americana se percebe que eles tem um dos piores índices de educação mundial, e me desculpe, eles não deviam ser exemplos nesse sentido. Essa tendência de retirar as disciplinas de humanidades (posso estar exagerando) pra mim é um grande retrocesso na história da educação ocidental. Se você olhar para a revolução científica e a revolução industrial, por exemplo, você percebe que isso ocorreu porque por detrás havia séculos de edução baseadas em uma abrangência de disciplinas que iam para além da pura técnica. O Trivium e Quadrivium, que eram as bases curriculares da Idade Média, eram compostos pelas disciplinas de lógica, gramática e retórica e de aritmética, astronomia, música e geometria. Perceba a multiplicidade dos saberes. E isso foi a base da primazia científica e tecnológica do ocidente. Foi a partir desses conhecimentos múltiplos que cientistas podiam fazer verdadeiras revoluções em seus campos de conhecimento. Porque eles conseguiam pensar para além da caixinha de suas disciplinas.

Veja-se o exemplo de Newton. Ele revolucionou a física. Ao mesmo tempo escrevia textos de filosofia e de teologia. Grandes prêmios Nobel escrevem sobre filosofia da ciência, como Peter Medawar, prêmio Nobel de Medicina ou fisiologia em 1960, que comentava sobre os limites do campo cientifico, dizendo que nem todas as respostas poderiam vir das ciências naturais.

Estudar humanidades te permite se tornar familiar com o uso da criatividade de grandes mentes para além da ciência. Além disso, o conhecimento técnico passa muito rápido; a taxa de atualização da tecnologia se torna cada vez mais rápida e logo as novidades se tornam obsoletas. Em 2-3 anos todo o conhecimento técnico e científico obtido na universidade se torna ultrapassado; as humanidades podem prover ferramentas para estender isso na medida em que se analisa trajetórias históricas e possíveis rotas para o futuro.

O estudo das humanidades ajuda a entender os impactos da ciência e da tecnologia na sociedade e auxilia na compreensão das necessidades da sociedade.

Em uma entrevista para o biografo Walter Isaacson, Steve Jobs disse que ele se considerava uma pessoa das humanidades quando criança, mas que também gostava de eletrônica. Foi nessa intersecção que ele se tornou um visionário na área de tecnologia. Benjamin Franklin também amava as ciências e ao mesmo tempo as artes. Ele é um exemplo do Iluminismo quando o estudo mais amplo das artes e humanidades era conciliado com estudos de ciência. Os Estados Unidos têm bons exemplos em sua história para não deixarem as humanidades de lado.

Einstein, o grande gênio da física, tinha uma paixão pela música. Sua mãe, uma pianista de certo renome, lhe ensinou os rudimentos da música, o que despertou nele uma paixão que acompanhou por toda sua vida. Einstein aprendeu a tocar violino e dizia que a música de Mozart era tão pura e bela que ele podia ver ela como um reflexo da beleza do próprio universo. Para Einstein, a música não era uma mera diversão, lhe ajudava a pensar. Ele tinha uma visão imaginativa de um artista, em suas palavras: “a imaginação é mais importante do que conhecimento”.

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Eu poderia ficar escrevendo muito mais, mas acho que deu pra entender o ponto: as humanidades e as artes são importantes, elas refletem beleza, ajudam a criatividade, auxiliam na formação integral do ser humano. O ser humano não é somente um ser racional, mas também um ser emocional e espiritual. Quando deixarmos de nos preocuparmos com um desses aspectos, ou a enfatizar somente um elemento desses, estaremos apressando a ruptura da natureza humana, transformando-nos em máquinas. Um processo que já começou há algum tempo atrás, cujo germe estava presente na própria revolução científica que, como vimos, presava pelo conhecimento mais amplo. A revolução científica se desdobrou no cientificismo e no tecnificismo e, a partir dali, começa-se a olhar para a realidade através dos olhos da ciência e da tecnologia, como se a resposta para todos os problemas estivesse no avanço da ciência e na tecnologia. A miopia moderna está produzindo robôs e não o aperfeiçoamento da natureza humana. A abolição do homem dá grandes passos.

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Written by Adriano Borges

Historiador, professor na UTFPR, casado com a mosaicista Mabel e pai de dois filhos.

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