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Superheróis e masculinidade

          Não precisa ser nerd pra perceber a quantidade de filmes de super-heróis que abundam nos cinemas ultimamente. Capitão américa: Guerra Civil, Batman x superman, X-Men:apocalipse, são somente os filmes que estão nos cinemas nesse semestre. Mas qual a razão de tanto sucesso? O que esses filmes têm a falar sobre a natureza do homem e da mulher? Esses filmes não fazem sucesso à troca de nada. Algo mexe profundamente em nós. A cultura dos super-heróis pode nos ajudar a lidar com problemas psicológicos fundamentais na atualidade.

Um primeiro ponto que pode ser percebido (e criticado) é a violência e o sexo cada vez mais presente no universo dos super-heróis, tanto nos quadrinhos quanto nos filmes e seriados. Não que nunca existissem lutas e analogias ao sexo (até porque tratava-se de uma cultura inicialmente masculina e jovem). Mas é que tem ocorrido um escalonar da violência. Dois exemplos:

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Nesse quadrinho dos X-men de janeiro de 1965, o professor Xavier explica aos seus pupilos que eles nunca devem causar mal aos seres humanos. Ao final, o inimigo derrotado é deixado livre, humilhado por ter sido vencido.

Agora comparem com o que acontece em um outro quadrinho, anos mais tarde:

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Este quadrinho desenha Ciclope instruindo Wolverine a matar todos que entrem no caminho. Toda a história deste gibi dos Novos X-men, no. 46, que apareceu em janeiro de 2008, é recheada com sangue e matança. Como os tempos mudaram! Assistam Demolidor produzido pela Netflix e percebam o mesmo apelo à violência.

Além da fúria, a sexualidade também é muito explorada nos quadrinhos. Mulher-maravilha, Arlequina de Esquadrão Suicida, Psylocke de X-Men, são alguns exemplos de uma hiperssexualização das mulheres, que já vem existindo à muito tempo nos quadrinhos. Só que, diferente de antes quando os quadrinhos eram destinados à um universo masculino bastante restrito, com algumas raras exceções, agora estas mulheres estão mais “disponíveis” para um público mais amplo. A faixa etária limitante é pouco observada e crianças também vão assistir aos filmes hiper-violentos e hiperssexualizados. Eu como pai e antes, como cristão, me preocupo. Algumas vezes penso que estamos procurando compensação por alguma falha…

Procuram-se super-heróis.

Essa busca por super-heróis por parte dos homens revela-nos angústias que muitas vezes temos deixadas guardadas no interior. Batman, Wolverine e SuperHomem são heróis que perderam seus pais e enfrentam problemas de identidade. A busca pela paternidade é uma busca para dentro de si mesmo; o mesmo Wolverine e Hulk têm dificuldades em controlar sua raiva; Demolidor procura vingança com as próprias mãos.

Enfim, os super-heróis nos cativam porque a busca deles acaba sendo a nossa busca. Nos identificamos. E isso não é um problema em si. Ler os quadrinhos com os olhos atentos pode nos ensinar grandes lições.

Um problema da sociedade pós­-moderna é exatamente uma feminilização do homem. Não me entenda mal. Estou falando para além das qualidades boas e necessárias que normalmente se associa às mulheres que os homens devem possuir, tais como sensibilidade para a necessidade dos outros, maior participação no cuidado no lar e na família etc. O que estou me referindo aqui é a busca por retirar características da natureza do homem e efetuar uma “pasteurização da masculinidade”. O homem, em sua maior parte, gosta de aventuras, de ficar ao ar livre, de esportes, de conversar com outros homens, mas a sociedade moderna parece querer diminuir essas características. E as igrejas têm um papel grande nisso.

Vejamos o exemplo de John Eldredge. Eldredge possuía um emprego que o fazia ficar muito tempo sentado em um escritório e longe de aventuras, esportes e ar livre. Quando caiu em si, mudou-se para Colorado, uma região montanhosa nos Estados Unidos. Refletindo sobre o homem na sociedade atual ele escreveu o livro “A grande aventura masculina”. Nesta obra ele identifica (sem ser categórico) as fases da vida de um homem: filho amado, caubói, guerreiro, amante, rei e sábio. A fase do guerreiro é a fase intermediária que, imagino, a maioria de meus leitores se encontra. É a fase de descobrir a vida, de testar “se tenho o que é necessário”. Se possuo problemas de identidade, de paternidade, é aqui que estacionarei e enfrentarei dificuldades. É nessa fase, na juventude, que muitos se rebelam e também a fase em que decidimos o que seremos para o resto da vida.

E um dos maiores problemas psicológicos para os homens nessa fase é exatamente o que fazer com essas questões que vão surgindo: raiva, sexualidade, tudo aflorando com os hormônios. Alguns acham fuga nas histórias em quadrinhos. Gente, que fique claro, as histórias não são um problema em si, assim como não se pode culpar o vinho porque existem bêbados. O problema está no mal uso.

Até meados do século XX, éramos uma cultura em que os homens eram, antes de mais nada, guerreiros.  Na Bíblia, até mesmo Deus era retratado como um guerreiro:

Ex 15.3: “o Senhor é um guerreiro, o seu nome é Senhor.”

Is 42.13: “O Senhor sairá como homem guerreiro, como guerreiro despertará o seu zelo; com forte brado e seu grito de guerra, triunfará sobre os seus inimigos.”

Jr 20.11: “Mas o Senhor está comigo, como um forte guerreiro! Portanto, aqueles que me perseguem tropeçarão e não prevalecerão.”

Sl 24.7-8: “Abram-se, ó portas antigas, para que o Rei da glória entre. Quem é o Rei da Glória? O Senhor forte e valente, o Senhor valente nas guerras.”

Quando o Espírito de Deus se apossava de um homem, ele se tornava um valente guerreiro:

Juizes 15.9-16: Sansão, apossado pelo espírito santo, se torna poderoso.

Jz 3.9-10. Otoniel

Jz 6.34. Gideão

1 sm 16.13: Davi.

 

Nosso Deus é um guerreiro porque há certas coisas na vida pelas quais vale a pena lutar, pelas quais temos que brigar.

Mas o que, como sociedade, temos produzido são homens fracos. E que fique claro, o homem forte, guerreiro, não é aquele que bate na mulher, que é grosso, que é machista. É aquele que é o primeiro a servir, a cuidar da família tanto no reino natural quanto no espiritual, a ser uma fortaleza contra ataques externos. O homem guerreiro não se cala frente à iniquidade que pode assolar sua família.

De maneira prática, o guerreiro presta atenção às necessidades da esposa, perscruta o conteúdo do que os filhos assistem e leem.

Pensem na maravilhosa oportunidade de um pai falar com seu filho sobre raiva, sobre paternidade, sobre sexualidade usando quadrinhos. É o ato de abaixarmos na altura dos filhos, olhando dentro dos olhos deles e dizer: “o que você pensa e sente, importa pra mim”!

A passividade, exemplificada no silêncio de Adão, que não se posicionou firmemente como um sacerdote e protetor do lar face à tentação, não tem lugar no léxico da masculinidade verdadeira. Nenhum espaço. E para vencer a passividade, Deus colocou seu coração de guerreiro em todo homem.

 

Livros:

John Eldredge. A grande aventura masculina

John and Staci Eldredge. Em busca da alma feminina

John Piper. Recovering biblican manhood and womanhood.

Larry Crabb. O silêncio de Adão.

Patrick Means. Conflitos secretos dos homens.

Russel Dalton. Marvelous Myths Marvel superheroes and everyday faith.

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Written by Adriano Borges

Historiador, professor na UTFPR, casado com a mosaicista Mabel e pai de dois filhos.

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