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Uma noite no aeroporto

Escrevi este texto enquanto me encontrava passando a noite inteira em um aeroporto dos Estados Unidos voltando de uma conferência. O tipo de experiência que deixa claro o quanto você pode ser vulnerável e que pode também lhe ensinar a ser um pouco mais humano e estar mais ciente sobre aqueles ao seu redor.

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Devido a tempestades fortes em New Jersey, perdi o meu voo de conexão nesta cidade, voo este que era o último do dia para o meu destino final, minha casa. Fui parar em uma longa fila na companhia aérea tentando ver o que eles faziam por mim. Saí de lá com meu voo remarcado para o dia seguinte, dois vouchers de 10 dólares para comer e a indicação da porta de saída do aeroporto. Exatamente, quando voos são cancelados ou atrasados devido a condições climáticas a única coisa que Cia. Aérea faz por você é te colocar no próximo, seja ele no dia seguinte ou não.

Eu deveria então sair buscando algum Hotel perto da meia-noite onde pudesse passar a noite, para estar de volta ao aeroporto no dia seguinte. Eu fiquei desamparada, e me senti tratada com muita desumanidade, eu era apenas nada mais nada menos que um cartão de embarque a ser trocado.

Sem internet, e sem saber quais Hotéis haviam por perto nesta cidade onde nunca estive, acabei usando um telefone disponível no próprio aeroporto onde você liga para lista de Hotéis alí relatados, procurando uma vaga. Apenas um deles tinha, USD177,00 a noite, valor que deveria é claro ser pago do meu bolso.

Depois de pegar o shuttle até este Hotel, entendi rapidamente o porque ele era o único com vagas. Fui levada para um daqueles Hotéis cujas portas dos quartos davam direto para a rua, indescritivelmente pequeno, sujo, quente, localizado literalmente no meio de estacionamentos e ao lado de algum tipo de bar com musica alta em uma região muito sinistra da cidade. As questões de segurança são muito mais sérias quando você é uma mulher viajando sozinha, pensei muito se deveria ficar ou não, mas o que eu ia fazer? Eu me negava a passar a noite no aeroporto, decidi ficar. Algum alerta piscava dentro de mim dizendo “Volte para o aeroporto”. Ao tentar passar o meu cartão de débito para pagar os 177 dólares mais caros da minha vida, por algumas horas no pior Hotel em que eu já estive, o cartão foi declinado por algum motivo, entendi como um sinal para ir embora. Voltei para o aeroporto.

Foi então que vaguei entre praças de alimentações, escadas rolantes e elevadores até achar um cantinho onde pudesse ficar nas próximas 9 horas, era 1 da madrugada.

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Aquele dia quando tudo isso aconteceu, em meio as filas que enfrentei, acabei conversando com várias pessoas que estavam na mesma situação que eu. Incluindo um rapaz que estava indo para o enterro de um amigo, e que por causa do atraso provavelmente ia perder a cerimonia. Observei uma família com crianças pequenas que dormiam no chão duro sem entender o que estava acontecendo, outra família que viajava por emergências familiares assim como deficientes físicos e idosos que como eu, teriam que passar a noite em uma cadeira do aeroporto. Senti que era injustiça da minha parte ficar reclamando por dentro sendo eu uma adulta, saudável, sozinha e perfeitamente capaz de me virar. Senti também que se eu pudesse fazer alguma coisa por algum deles eu faria. Senti alegria quando o rapaz, que estava indo para o enterro do amigo, aceitou a minha oferta de um dos meus vouchers de comida, a cia. aérea não tinha dado nada pra ele. E é claro senti também, muito, muito cansaço.

 

Além da experiência

Muito além de uma situação pequena como esta que eu acabei de relatar, existe um mal que reside em nosso mundo do qual necessitamos de salvação. A desumanidade é capaz de coisas que não podemos nem imaginar, e é muito triste pensar em todas as tragédias dos dias atuais que tem afligido pessoas inocentes. Você também sente que tem sido difícil prosseguir com a vida sem ficar tocado?

Por outro lado, muitas vezes situações onde as pessoas se encontram vulneráveis, também trazem o melhor de muitos de nós pra fora e isso é algo bom que podemos tirar destas situações.

Coincidentemente ou não, o livro que eu estava lendo nesta viagem era do Nick Vujicic, este cara que nasceu sem pernas e braços tem dado um show de exemplo na capacidade de superação.

Se tem uma coisa que eu aprendi nesta minha noite no aeroporto foi que, experimentar desumanidade também nos faz muito mais humanos! Aprendi também que momentos que podem trazer muitos motivos para murmuração e revolta, podem, por outro lado, proporcionar ótimas reflexões e lições de vida!

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Written by Hellen Weinschutz Mendes

Nascida na boa safra de 1982 em Curitiba e residindo atualmente em Ottawa no Canadá. Bióloga, sempre curiosa, doutoranda, esposa, amante da natureza, apaixonada por viagens e dona de uma cachorrinha de orelhas macias.

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