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Uma questão de identidade

Sempre que tenho vontade de ler um livro novo, procuro de antemão saber como são os personagens da história. Para mim é importante saber como eles são, o que pensam, o que buscam, porque agem dessa ou daquela forma. Enfim, eu busco personagens bem construídos.

Gosto quando encontro um ser aparentemente forte, cheio de convicções, discursos poderosos, frases de efeito, e que no desenrolar da história começa a perceber que as coisas não são do jeito que ele pensa. Acompanhar a desconstrução e logo depois o aparecimento de um novo personagem é fantástico.

Esse é o tipo de coisa que atrai as pessoas em um livro. E por que? Creio que seja pela identidade. Por mais fantástica que a história seja, por mais distópica e ficcional que seja a realidade do livro, os conflitos que os personagens enfrentam são comuns, ordinários. Sentimentos como culpa, alegria, mágoa, ira, dificuldade para perdoar, incompreensão diante de situações confusas ou que marcam suas vidas, esses são alguns dos elementos que nos fazem ficar presos à leitura.

Homem-Aranha é um bom exemplo disso. Ele é o personagem mais popular da Marvel Comics, e por mais que seja interessante os superpoderes e as histórias recheadas de aventura, a questão que é mais facilmente lembrada pelos leitores é a dificuldade de manter a vida como Peter Parker. Afinal, ele pode ter poderes sobre humanos, mas nenhum deles cria comida ou paga contas. Parte da graça das histórias está em acompanhar a luta do personagem para conciliar a vida de herói, trabalhar para um chefe alucinado que nunca está contente com nada, morar com tia, cuidar do seu relacionamento com Mary Jane e ainda lidar com o sentimento de culpa e perda do tio Ben.

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Dinheiro? Quem é que precisa de dinheiro, Parker?

Quantos de nós não passamos por esses mesmos dilemas, ou pelo menos por parte deles?

Lembro da sensação de assombro por ler Memórias do Subsolo de Dostoievski e me identificar com várias descrições dos pensamentos do protagonista. São descrições sombrias, de pensamentos que oscilam entre desesperança e lapsos de alegria. Fiquei incomodado com aquilo, mas acabei identificando que nem tudo era mil maravilhas quando o assunto era minha autoimagem.

Há alguns anos trabalhei em uma empresa do ramo de telecomunicações e foi um impacto enorme para mim. As pessoas com quem trabalhei eram na maioria aceleradas, agitadas, funcionando à milhão! Isso gerou um impacto enorme em mim, porque tenho um perfil quase que totalmente contrário a esse. Eu me irritava facilmente e ficava indignado pensando como uma pessoa poderia ter uma vida vivendo desse jeito.

Apesar de acabar me acostumando com o passar do tempo, só aceitei isso depois de uma leitura que mudou completamente meu ponto de vista sobre esse tipo de perfil: A Revolta de Atlas. Nesse livro, Ayn Rand narra uma excelente história do ponto de vista de quatro personagens diferentes, sendo que pelos menos três deles tem esse perfil “pra ontem”.

Lembro do sentimento confuso, de gostar, por exemplo, das soluções que Dagny Taggart dava para as presepadas do irmão James, mas de ficar indignado pelo fato de ela não ter hora para sair do escritório. De como Francisco d’Anconia conseguia ser um mauricinho miserável e um cara tão legal ao mesmo tempo e de como me irritei pela forma como Hank Rearden cuidava tão mal da sua vida pessoal e como era um profissional espetacular que qualquer um que se preze gostaria de ser igual.

Todas essas coisas que citei e mais tantas outras que já li se encaixam com algo dentro de mim. Se não se encaixam, me ajudam a entender que muitas coisas que me fazem torcer o nariz podem ser no mínimo, compreendidas. Eu não preciso aceitar tudo o que leio ou ouço e não preciso mudar de opinião cada vez que conheço algo novo, mas preciso saber como lidar com essas situações. É nesse tipo de coisa que eu entendo que leitura é algo absolutamente necessário na minha vida. Nas nossas vidas. Leitura faz a gente se tornar alguém melhor.

Hoje eu entendo pessoas como Dagny Taggart e Hank Rearden e convivo muito bem com elas, mas ainda me identifico mais com caras como Tex Willer, que depois de um bom dia de trabalho, precisam de uma porção de batatas, um grande bife feito na chapa e uma boa noite de sono.

Tex Snow
Tex Willer fazendo pose após um divertido tiroteio em uma tarde de primavera em Guarapuava City Paradise.

Ler me ajuda a saber quem eu sou e quem não sou, o que gosto e o que não serve para mim. Ajuda a entender o que precisa ser mudado e o que não precisa. Ler é bom demais 😉

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Written by Chico Milk

Chico Milk nasceu em Guarapuava City Paradise. Um dos quatro seres viventes. Guitarrista low profile, amante de dias frios, chuvosos e cinzentos, bebedor nato de café com leite, leitor de livros e quadrinhos.

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Sobre quando decidi descer a colina.

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