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Vencendo a Síndrome do Impostor

 

Você recebe um e-mail do seu chefe tecendo elogios por algo que você fez muito bem, alguma missão muito bem entregue e imediatamente pensa: “Ah, ele(a) só está sendo simpático(a)”, “Este elogio tem segundas intenções”, “Isso se trata de alguma técnica para deixar funcionários felizes” ou “Este elogio não é sincero”. Você, aluno de doutorado ou mestrado, acaba de apresentar um seminário importante para o qual você se preparou durante dias ou até semanas e seu orientador ou algum colega solta um elogio e você imediatamente pensa: “Ele(a) está apenas sendo simpático(a)”, “Eu poderia ter feito melhor”.

Ou ainda, frente a algum desafio na sua vida acadêmica ou no seu trabalho, você percebe que existem coisas que você não compreende completamente e que na sua opinião era obrigado a saber naquele ponto e então, sente-se uma farsa.

Atenção, você pode ser vítima de um mal pouco conhecido, a Síndrome do Impostor.

“As pessoas que sofrem este tipo de síndrome, de forma permanente, temporária ou frequente, parecem incapazes de internalizar os seus feitos na vida. Não importando o nível de sucesso alcançado em sua área de estudo ou trabalho, ou quaisquer que sejam as provas externas de suas competências, essas pessoas permanecem convencidas de que não merecem o sucesso alcançado e que de fato são nada menos do que fraudes.”

(Definição de Síndrome do Impostor no Wikipedia)

Alguns meses depois de ter começado meu doutorado em uma Universidade aqui  no Canadá, acabei identificando  em mim fortes sinais de que eu poderia estar sofrendo desta síndrome e deixando ela muitas vezes me enfraquecer ao longo do caminho. Acabei por ser mais um número na impressionante estatística, afinal a Síndrome do Impostor é extremamente comum em estudantes de doutorado e também mais comum ainda em mulheres.

A Universidade onde faço minha pesquisa forneceu certa vez uma palestra intitulada “Lutando contra a Síndrome do Impostor” e lá fui eu. No entanto, a palestra aconteceu em um período um tanto conturbado e saí de lá sem muita munição para combater a tal Síndrome, e pior, sem nem saber ao certo se eu podia realmente ser uma vítima disso ou se eu era na realidade, uma verdadeira fraude. Guardei tudo isso em alguma gaveta mental e prossegui fingindo que nada estava acontecendo.

Mas foi cerca de um ano depois, quando tive que passar por um período extremamente difícil antes da minha aprovação no Comprehensive Exam, que entrei novamente em contato com aqueles monstros. O fato de estar sempre sendo desafiada, pressionada e testada, me levava a me enxergar como uma fraude. Acabei por conta indo atrás de mais informações sobre a Síndrome e de como combate-la. Creio que, assim como muitas pessoas, incluindo talvez você que está lendo este texto, eu precisava parar de batalhar com estes pensamentos e simplesmente me focar naquilo que eu estava fazendo e alcançando. Mas combater a Síndrome do Impostor não é tão simples quanto parece.

Se você se identificou um pouco com os cenários descritos no início do artigo ou mesmo com a minha história, não perca tempo sucumbindo nos pensamentos negativos. Reflita e ponha em prática estes 6 passos para vencer a Síndrome do Impostor.

 

  1. Mantenha uma lista das coisas que você já alcançou

É muito comum sentir que não conquistamos muito na vida, principalmente quando atrelamos conquistas a bens materiais somente. Apesar de uma casa própria ou uma viagem internacional em família por exemplo serem coisas muito boas e conquistas importantes, na minha opinião, as maiores conquistas geralmente não são materiais.

Coisas como: vencer um medo, manter um casamento saudável, passar em uma prova ou concurso importante, ter um filho, organizar um evento memorável ou ter um grande impacto positivo na vida de alguém.

É muito provável que se você parar para começar a fazer esta lista, contendo tanto as suas conquistas materiais como não materiais somado ainda às intelectuais, muitas lembranças boas virão a sua mente e lhe mostraram que você esta sim progredindo! E com relação a profissão ou a vida acadêmica, sempre haverá algo novo a aprender, sempre. Mas lembre-se daquelas coisas que você domina e entende hoje e que, em algum momento da sua vida, você achou que nunca seria capaz de aprender.

 

  1. Lembre-se de si mesmo e de seus horizontes a 5 ou 10 anos atrás

Algo que faz muitas pessoas caírem na Síndrome do Impostor é julgar-se a si mesmo hoje baseado em dias, semanas ou meses anteriores. Mas uma forma muito mais sadia de nos auto avaliarmos é comparar-nos hoje com onde estávamos a um, cinco ou dez anos atrás.

Assim como a lista do item anterior, uma auto avaliação com uma linha de tempo mais estendida, provavelmente vai lhe revelar muitas coisas boas e um crescimento maior do que aquele que você enxerga agora.

 

  1. Escreva um longo e-mail (ou até mesmo uma carta) atualizando alguém sobre a sua vida

Escrever é uma ótima forma de se obrigar a parar e refletir. Esta pode ser também uma forma muito boa de relatar a alguém querido(a) onde você se encontra.

Como moro fora do país, gosto de vez em quando escrever um longo e-mail para meu familiares e amigos mais próximos, e são nestes momentos que percebo muitas vezes o quanto me movi e cresci em algumas áreas. Foi escrevendo e-mails que percebi por exemplo que coisas que para mim eram muito desafiadoras no começo da minha vida aqui no Canadá, hoje já não são mais tão desafiadoras e já lido muito melhor com elas.

Acredite, você vai se sentir ótimo ao terminar este e-mail contando um pouco sobre seus últimos meses a alguém que mora distante, e pode vir a perceber então o quanto você tem vencido em certas áreas.

 

  1. Liste três coisas sobre si mesmo das quais você sente orgulho e que não estão relacionadas a sua profissão.

Um dos maiores erros que comentemos é colocar a nossa identidade naquilo que exercemos como profissão. O que acontece daí é que tanto fracassos como sucessos na profissão, acabam mexendo fortemente com os mais intrínsecos sentimentos. Acontece que nós somos muito mais do que aquilo que nós fazemos! Eu pessoalmente acredito que nós somos criados para propósitos muitas vezes maiores do que nós visualizamos.

Você com certeza tem orgulho de alguma ou algumas coisas na sua vida! E seria um ótimo exercício se lembrar constantemente disso.

No meu caso, por exemplo, me considero boa em Geografia (sempre foi meu forte na escola) e um tanto quanto em cultura geral também. Pois é, como bióloga molecular isso não me serve pra nada praticamente, mas pelo menos é um exemplo de algo que me lembra que existem outras coisas que faço bem e que me deixam orgulhosa além do presente doutorado. Gosto de participar e ouvir quando o assunto da conversa é sobre países, cidades e posições geográfica, costumes e culturas peculiares. Pode parecer bobo, mas lembrar disso de alguma forma me ajuda a enxergar que eu sou mais do que a minha profissão. Acredito que a maioria de nós tem uma, duas ou três coisas das quais nos orgulhamos e achamos que podemos contribuir mais ao mundo. Pare e reflita sobre elas.

  1. Pare de se comparar com os outros!

Talvez este seja o ponto mais crítico que leva muitos a sucumbir na escuridão que a Síndrome do Impostor pode gerar. Não use a aparente confiança, sucesso e segurança de alguém perto de você como uma medida para se auto avaliar. Apenas, não faça isso. É difícil muitas vezes, mas comparar-se a outras pessoas com certeza faz muito mais mal do que bem.

Nós conhecemos a nós mesmos a partir do nosso interior e conhecemos as outras pessoas a partir do exterior e apenas daquilo que conseguimos enxergar. Isso por si só já diz muita coisa. A maioria de nós não saí por ai revelando logo de cara todas as fraquezas e áreas de defasagens, principalmente no ambiente de trabalho ou acadêmico.

Como você pode comparar tudo aquilo que você sente, pensa e sabe sobre você, com aquilo que você apenas enxerga no exterior da outra pessoa? A sua aparente dificuldade, com um aparente sucesso? O exercício de parar de se comparar é com certeza benéfico por vários outros motivos. Mas quando se trata de se sentir uma fraude, é geralmente na comparação que reside a origem destes sentimentos.

  1. Aceite elogios

Ao negar um elogio você está antes de mais nada, ignorando o bom julgamento da pessoa que o elogiou e em segundo lugar deixando de ser reconhecido. Pense no ato de aceitar um elogio como uma passo a mais para ser assertivo. Uma pessoa assertiva conhece o seu valor e demonstra confiança, o que é bem diferente de pensar muito de si mesmo. Se você é do tipo de pessoa que geralmente nega um elogio, ou responde com um comentário que acaba demonstrando um certo auto-desprezo, acho interessante tentar sempre a boa prática de respirar fundo assim que você receber um elogio. Tente isso de vez em quando, assim que receber um elogio, inspire e expire com calma. No ato de respirar fundo muitas vezes acabamos conseguindo freiar um comportamento automático.

É muito importante também ter o costume de agradecer a pessoa que o elogiou, mesmo que ocasionalmente o elogio possa mesmo ser falso, nós nunca vamos ter controle sobre isso. Tenha em mente que um elogio sincero é uma forma de reconhecimento do que quer que você fez e foi notado!

 

Concluindo

Se depois de ler isso tudo você ainda está em dúvida sobre ser uma vítima da Síndrome do Impostor ou ser mesmo uma fraude em qualquer que seja a sua situação ou posição atual, tenha em mente o seguinte: pessoas que são verdadeiramente fraudes, não sofrem da Síndrome do Impostor. 🙂

O que acontece geralmente é que muito pelo contrário, pessoas que de alguma forma burlam o sistema, que são produto de pura sorte ou que continuam enganando a todos com um aparente sucesso, estão constantemente enganando a si mesmas também sobre algo que elas não são. Ou seja, só o fato de você se sentir mal pensando que o seu sucesso não é merecido e que suas conquistas não são fidedignas já são sim fortes indícios de que você poderia estar, sem saber, sofrendo desta Síndrome.

Hoje em dia parece moda nomear as coisas como Síndrome não é mesmo? Tive muita resistência a ficar me dirigindo a Síndrome do Impostor, com este nome mesmo e entendo qualquer resistência inicial para refletir mais profundamente sobre isso. No entanto, precisamos reconhecer que sim, elas existem. No caso de uma Síndrome não patológica como a do Impostor creio que seja bem mais fácil ser comedido(a). Mas por outro lado pode ser mais fácil de vencer e prosseguir!

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Written by Hellen Weinschutz Mendes

Nascida na boa safra de 1982 em Curitiba e residindo atualmente em Ottawa no Canadá. Bióloga, sempre curiosa, doutoranda, esposa, amante da natureza, apaixonada por viagens e dona de uma cachorrinha de orelhas macias.

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